Resenhas

Textos publicados no caderno 2 do jornal A Tarde.

O passageiro distraído

Conduzir uma narrativa plugada no fluxo de consciência é um desafio e tanto para qualquer autor, já que existe sempre o risco de se perder a mão – e o pulso da história. Pois o que sobressai nas páginas de “Passageiro do fim do dia”, o novo e merecidamente festejado livro de Rubens Figueiredo pela Companhia das Letras, é exatamente a capacidade de seguir os ziguezagues do pensamento do protagonista, ao mesmo tempo em que mantém a escrita sempre fluida e captura a atenção do leitor, do início ao fim.

Romancista e contista, Figueiredo domina a técnica narrativa com maestria. O romance parte de quase nada: a longa viagem de ônibus do personagem principal, do centro de uma grande e conturbada metrópole até o bairro periférico e paupérrimo onde mora a sua namorada. O pano de fundo é a opressiva realidade em volta, mas filtrada pela atitude básica do homem de quase trinta anos que se propõe a “não ver, não entender e até não sentir”.

No trajeto, o leitor vai mergulhando nos meandros da consciência de Pedro, um sujeito muito distraído que paga um alto preço existencial por sua falta de senso prático. Trata-se de um “loser”, ou perdedor, mas que não parece se incomodar muito com esta condição e segue olhando para o mundo a partir de seu ponto de vista algo perplexo, idiossincrático, quase inocente.

As cenas que se projetam são recorrentes e desenham a trajetória de Pedro e o micro-cosmo onde transita: a incapacidade de acompanhar e concluir o curso superior de Direito em uma universidade pública gratuita, devido à crônica dispersão; a tentativa de ganhar a vida como camelô; a traumática experiência de ter a perna quebrada pelas patas de um cavalo da guarda municipal, em meio a um confronto de rua; a montagem de uma pequena loja de livros de segunda mão, graças à indenização recebida da prefeitura com a ajuda de um amigo advogado; o relacionamento com uma moça ainda mais pobre, que mora longe e trabalha como auxiliar num escritório de advocacia.

Entre os fragmentos de memória, Pedro observa os seus companheiros na longa viagem de ônibus, enquanto crescem os boatos sobre uma conflagração à frente, envolvendo a guerra entre traficantes rivais. E, suprema divagação, é capaz de passar boa parte do tempo absorvido pela leitura do surrado exemplar de uma obra sobre a passagem do naturalista inglês Charles Darwin, o pai da Teoria da Evolução, pela grande cidade e seus arredores então cobertos por exuberante mata tropical – talvez os mesmos locais onde hoje estão as vastas extensões de tecido urbano deteriorado percorridas pelo ônibus.

Nessa terra em transe, faz sentido, portanto, a fixação do personagem pela descrição minuciosa feita por Darwin sobre a implacável captura de uma aranha por uma vespa. Mas o que importa mesmo é que o final em aberto, com o ônibus sempre mais próximo do conflito apenas sugerido, confere a Pedro essa aura de anti-herói que desce ao inferno, sem alarde, em busca da amada – para resgatá-la ou, o que é também uma possibilidade, para acabar sucumbindo junto com ela.

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A falta que Vinícius nos faz

Trinta anos se passaram: em 9 de julho de1980, a morte levou embora Vinícius de Moraes. Foi uma perda no plural, afinal se tratava, ao mesmo tempo, de um dos grandes do cânone da poesia brasileira, do compositor popular cujas letras simplesmente ajudaram a forjar a revolução da bossa nova, do intelectual que fez como ninguém a ponte entre o erudito e o popular. E, claro, de um adorável arquétipo do boêmio inveterado, homem de grandes e muitas amizades, amante das mulheres a ponto de ter se casado nada menos que oito vezes.

Crítico de cinema bissexto, cronista e diplomata de carreira também, é bom lembrar, aliás demitido pelo governo Costa e Silva, no final dos anos 60, em mais uma amostra da truculência dos militares. Nascido em 1913, Vinícius era tudo isso e muito mais: uma personalidade marcante da cultura brasileira no século XX.

O poeta acabou afetado por essa multiplicidade de talentos, principalmente quando, além de letrista, virou cantor e ganhou os palcos do mundo, ali pelos anos 60. Mais do que canalizar o impulso criativo, o sucesso na MPB contribuiu, ainda, para instilar preconceito nos puristas. Fato é que, segundo o biógrafo José Castello, as universidades estão muito mais bem servidas por teses sobre os outros luminares do modernismo brasileiro, em detrimento daquele que, em parte pela figura simpática, mas muito por falta de respeito mesmo, a certa altura passou a ser chamado de “poetinha”.

A própria obra poética de Vinícius, é bom que se diga, era multiforme. A este respeito basta lembrar Manuel Bandeira, para quem a poesia do amigo “tem o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a perícia dos parnasianos (sem refugar, como estes, as sutilezas barrocas) e, finalmente, homem bem do seu tempo, a liberdade, a licença, o esplêndido cinismo dos modernos”.

O ensaísta Francisco Bosco é taxativo: “Essa multiplicidade foi desconcertante para a maioria dos críticos, e mesmo decepcionante para quase todo o sistema cultural brasileiro”. Já o músico e compositor José Miguel Wisnik amplia o raciocínio: para ele, Vinícius decepcionou, sucessivamente, “os defensores da poesia transcendental contrários à poesia modernista (nos anos 40), os defensores da poesia escrita contrários à canção popular (do final dos anos 50 para os anos 60), os defensores da bossa nova contrários à canção mais elementar e hedonista (nos anos 70)”.

Sucesso popular – Infeliz no jogo da crítica, feliz no amor do público. Vinícius conquistou corações e mentes em todas as etapas de sua fulgurante vida artística. Em sua obra literária, constam poemas amados e declamados por aí, como Soneto de fidelidade (“Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”) e Poética (“De manhã escureço/ De dia tardo / De tarde anoiteço / De noite ardo.”), só para ficar em dois exemplos notórios.

Na música, basta dizer que é de Vinícius, em parceria com Tom Jobim, o clássico absoluto da bossa nova, Chega de Saudade. A dupla fez também a universal Garota de Ipanema e outras pérolas do quilate de A felicidade. Isso para não falar nos afro-sambas em parceria com Baden Powell, e no grande sucesso popular das canções compostas com Toquinho nos anos 70.

E tem mais: o multiartista foi bem sucedido, ainda, ao incursionar pelo teatro:      a peça Orfeu da Conceição, que marcou época nos anos 50, virou filme com o diretor francês Marcel Camus, conquistando a Palma de Ouro em Cannes em 1959 e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano seguinte.

Poeta universal – Em estudo incluído na edição de Para viver um grande amor para a coleção Vinícius de  Moraes, da Companhia das Letras (coordenação editorial de Eucanaã Ferraz), o ensaísta Francisco Bosco relembra o crítico Antônio Cândido, para quem o sentimentalismo talvez tenha sido o maior pecado cometido pelo poeta, em meio ao materialismo reinante na arte do século XX.

A boa notícia é que agora, longe dos embates do passado, “Vinícius vem sendo reavaliado, e os obstáculos críticos a um julgamento mais justo de sua poesia vêm sendo superados”, afirma Bosco. Nada mais justo: se Vinícius não ligava para as convenções, é para além destas que deve ser lido. Para ser entendido, enfim, como o poeta universal que sempre almejou ser.

Para conhecer um grande poeta

A fórmula é arriscada: intercalar crônicas publicadas originalmente na imprensa com poemas, de fato e de circunstância. Mas é esse despojamento que faz todo o encanto de Para viver um grande amor, um livro onde Vinícius de Moraes, se reúne poemas de extração em geral menos densa, ao entremeá-los com os textos em prosa meio que evidencia um programa estético e existencial: vida e poesia se alimentam uma da outra, o tempo inteiro.

Feito sob medida para o grande público, como observou Otto Lara Resende, que enxergava no livro “o Vinícius mais acessível”. Lançada originalmente em 1962 e alvo agora de nova edição na série dedicada ao autor pela Companhia das Letras, a obra passa a sensação de que estamos na intimidade do poeta, descobrindo suas afinidades eletivas, observando os ritos da sua entrega incondicional à mulher amada, até mesmo aprendendo um pouco sobre a maneira de tecer um poema.

E como tece, vide as estripulias geniais, ainda que despretensiosas, de O anjo das pernas tortas, dedicado ao jogador Garrincha, e Não comerei da alface a verde pétala, um manifesto contra a dieta. Também há no livro momentos mais compenetrados, como a profética Carta aos puros, a cáustica As mulheres ocas e mesmo a modernista Poema para Candinho Portinari em sua morte cheia de azuis e rosas. Merece destaque ainda a deliciosa O poeta aprendiz, um retrato do artista quando pirralho que mais tarde ganhou melodia de Toquinho e, recentemente, interpretação – e ilustrações – de Adriana Calcanhoto.

Ressalte-se ainda, claro, a apologia do amor cavalheiresco, derramadamente preconizada pelo texto em prosa poética que dá título à obra: “Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro – seja lá como for”.

Mas é preciso dar especial atenção também às crônicas. O autor conta que peneirou cerca de mil delas para chegar às do livro, um mosaico onde aparecem temas escolhidos de maneira aparentemente fortuita. Há textos de uma leveza só alcançada pelos mestres do gênero, como o relato quase onírico de um encontro real do poeta com uma embriagada Ava Gardner, na Hollywood dos anos 40 – tendo Carmen Miranda como testemunha.

Em outra vertente o poeta em prosa decide falar, a sério, do ofício da poesia. É revelador o seu encantamento por Rainer Maria Rilke, que a seu ver foi dos poucos a, de fato, deixar-se abandonar, “náufrago irremediável”, à avidez das águas da poesia. Vinícius afirma: “O material do poeta é a vida”. Alguém que não tenha essa compreensão “nunca será um bom poeta, mas um mero lucubrador de versos”. Uma prova de coerência de quem parece ter extraído direto da vida, sem filtros, cada texto que escreveu.

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Miragem de paz na Terra Santa

Em artigo escrito logo após o assassinato do primeiro-ministro Itzhak Rabin por um terrorista judeu, Guila Flint, jornalista brasileira radicada em Israel, buscava uma leitura otimista do efeito produzido no país pelo episódio: quem sabe o país se daria conta de que não era uma grande família, “tornando-se uma sociedade normal, em vez de uma tribo”, e impondo limites enfim à extrema-direita em nome sobretudo da conquista da paz com os palestinos? Uma década e meia depois, Guila, entretanto, continuava a narrar as insanidades do conflito entre os dois povos. A extrema-direita ganhara terrenoem Israel. E, no lado palestino, o mesmo acontecera com o grupo radical islâmico Hamas.

É essa espécie de desalento que se depreende da leitura de “Miragem de paz: Israel e Palestina: processos e retrocessos”, volume lançado por Guila pela editora Civilização Brasileira. O livro tem início com o artigo sobre o pós-Rabin, em novembro de 1995, e termina em julho de 2009, numa sucessão de textos produzidos pela jornalista para veículos brasileiros como o Jornal da Tarde, o Estado de São Paulo, a revista Carta Capital, a Globo News e sobretudo o site da BBC Brasil.

Se o começo é marcado por um drama israelense, o final do livro tem um corte meramente temporal: o conflito, interminável, segue convulsionando o Oriente Médio.  E, em retrospectiva, a esperança é que parece de fato um sentimento deslocado. Nesta rotina sangrenta, a imagem do aperto de mãos entre Rabin e o líder palestino Yasser Arafat em 1993 parece hoje uma espécie de fantasmagoria, já que produziu uma expressão, “processo de paz”, que costuma ser usada como cortina de fumaça em meio a gestos reiteradamente beligerantes.

Ao longo de quase 500 páginas de cobertura jornalística sem partidarismo, o livro expõe todos os vértices da questão. Um dos mais cruciais é a ambigüidade da liderança de Arafat, que afirmou internacionalmente a causa palestina mas não soube ou não quis romper com o peso das acusações reiteradas de corrupção e conivência com o terrorismo.

Não menos importante, a intransigência de uma parte da sociedade israelense, sobretudo os fanáticos religiosos, que afinal de contas não querem saber de um Estado palestino, forçam a política de assentamentos nos territórios ocupados e, ao provocarem a reação do inimigo, capturam os políticos demagogos e tornam o país inteiro refém do seu programa de eterna confrontação.

Para fechar o círculo vicioso, some-se o capítulo mais recente: a fragilidade dos sucessores de Arafat, que cederam espaço ao Hamas e a outros grupos terroristas comprometidos, simplesmente, com a aniquilação de Israel. Mas as páginas de “Miragem de paz” são freqüentadas também por gente razoável dos dois lados, como um grupo de líderes palestinos, inclusive do próprio Hamas, que reconhecem o Estado de Israel e propõem aos compatriotas um corajoso “Documento de Reconciliação Nacional”. E um pacifista israelense de 85 anos, chamado Uri Avnery, que afirma: “Na minha longa vida aprendi que, muitas vezes, quando tudo parece perdido, a solução já está a caminho”.

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