Crônicas

Textos publicados no blog Bahia na Rede.

Os deuses errantes numa dessas esquinas

Um: olhos esbugalhados, expressão tensa, barba e cabelos negros encaracolados, invariavelmente em silêncio. Outro: expressão leve de traços delicados emoldurados por longos e lisos cabelos castanhos, barba idem, jeito falastrão dizendo coisa com coisa e expondo, sempre, a boca banguela a tornar ainda mais abobada a sua cara. Sempre juntos, sempre dopados de um jeito ou de outro. Aqui, na cidadezinha qualquer, muita pinga na falta de drogas mais legais.

Pés descalços, calças e camisetas em frangalhos. Os dois perdidos por aí, nem eles lembram mais desde quando. Quanto tempo é o bastante pra se abrir mão de sapatos, sandálias pelo menos? Pra deixar de lado a mochila com uma muda de roupa? Pra deixar de escovar os dentes e renunciar a um diálogo inteligível com as pessoas, com o próprio companheiro de viagem? Depois de quanto tempo, coisa rara até em casais, se pode abrir mão de frases lineares, tipo 2 + 2 = 4, pra se fazer entender pelo outro?

Com certeza não foram os primeiros a ganhar o mundo, isso até já devia ter perdido o sentido original de coisa revolucionária quando eles saíram de casa. Mas eles fizeram isso e nunca mais olharam pra trás. Não decidiram virar monges nem tampouco santos hindus. Era pra fazer aquilo, atender ao chamado e eles foram. No começo havia mais gente como eles, como se fosse uma marcha inexorável e todos estivessem fadados a largar as preocupações mesquinhas, os cinco mil anos de hipocrisia, e entrar no ritmo das estrelas e da natureza.

Muitos daqueles errantes voltaram para a companhia dos lobos, toparam se habilitar de novo a serem lobos de outros homens. Alguns ficaram totalmente caretas, como se nunca tivessem experimentado aquela espécie de errância ritual. Outros mantiveram o verniz, o estilo das roupas, dos cabelos, a atitude, o hábito de celebrar a rebeldia com doses mais ou menos racionais de sexo, drogas, rock’n’roll.

Parte desses peregrinos aprendeu a negociar para eles um lugar no meio da confusão: como uma tribo numa terra estrangeira, a andar em bandos e fixar pontos de referência para onde se pode ir no intervalo entre as andanças. Como se fossem duendes, caiporas, elementais, enfim, a escolha recaindo sempre em cenários naturais, paradisíacos. Sem mais aquela de mudar o mundo: a porra desse mundo não muda assim, e se não tomarmos cuidado ele muda a gente, ou melhor, traz a gente de volta pra velha cansada prostituída Babilônia.

Em casos extremos, a barreira da sanidade foi ultrapassada, e graças à demência já não houve como sequer pensar em dividir o mundo entre nós e eles, o mundo ganhou um aspecto gelatinoso demais pra fazer sentido.

Os dois vagabundos na cidadezinha ficaram a meio caminho entre os bandos em diáspora e os de miolos fundidos. Resistiram, permaneceram na estrada, mas aparentemente sem contato com os seus iguais, com as ideias e mecanismos capazes de fazer uma pessoa se orgulhar de suas escolhas. Perderam as referências, mas não a ponto de renunciar de todo a certas fixações, tipo andar por aí, de cidade em cidade, e fazer artesanato pra sobreviver, e falar gírias de um tempo tão distante.

Como numa cena de cinema, os dois caminham por uma rua comprida de paralelepípedo.  É surpreendente pensar no quanto estão inteiros depois de todos esses anos, se forem relevados os dentes a menos. Sem mais ideias ou sapatos a apertar os pés, caminhando para onde apontam seus narizes. Um circunspecto, outro beatífico. Invisíveis para os transeuntes, como só os mendigos, os proscritos ou os viajantes do tempo.

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A peleja de Bakunin e Proudhon na terra do Poleirão

Ouvi falar em anarquismo pela primeira vez em Brumado. Tinha uns 16 anos. Meu amigo Rogério Palmeira, dois anos mais velho, já era um cabeção. Bakunin, Proudhon & Cia foram apenas parte dos personagens reais ou literários a entrar em minhas preocupações nerds – ou freaks, ou talvez mais propriamente CDF’s, como se rotulava na época –, por conta das longas conversas com Rogério enquanto, junto com o resto da galera, percorríamos as ruas e praças da cidade na tentativa, quase sempre vã, de ‘pegar mulher’.

Mas virou carnaval, como não poderia deixar de ser na Bahia: daria tudo pra assistir como espectador, com os olhos de hoje, àquele bando de ETs na paisagem árida e saturada de axé music, todos vestindo camisetas brancas toscamente pintadas em silk-screen com o ácrata, o símbolo do anarquismo. O nome do bloco: Depravado. Nada mais, nada menos. Os nomes lembrados agora: além de mim e de Rogério, Roberto Palmeira, Jorge Ésperma, Jorge Valério, Gugu, Roberto Audi, Zé Hélio. Uma ou outra namorada circulava por ali, claro, mas não lembro se uma delas se aventurou a participar daquela agremiação momo-revolucionária.

Detalhe importante: Ésperma ganhara o apelido após sustentar, numa discussão, ser esta a pronúncia correta para a palavra designativa do líquido seminal. Ele foi taxativo e se ferrou. O argumento infeliz: afinal de contas, é só ver como se pronuncia espermatozóide: ésperma, meu caro Watson! Éramos ou não um bando de depravados? Mas, no duro e sem trocadilhos, tenho minhas dúvidas se alguém mais além de nós se lembra daquele lúbrico desfile.

Era o verão de 1986, e a então regionalmente célebre folia brumadense estava completamente dominada pelos blocos Germes da Era e Poleirão, ambos com centenas de integrantes, centenas de gatas e cada um com sua respectiva mortalha, ancestral do abadá, além das indefectíveis mamães-sacodes e do imponente, barulhento, irresistivelmente sedutor apelo do trio elétrico.

Tudo custando caro e representando um espúrio esquema burguês pra conspurcar o clima da festa igualitária, do verdadeiro espírito do carnaval. Tudo, evidentemente, conspirando pra tornar irrelevante a nossa trupe de uma dúzia, no máximo. Onde ninguém pagou além dos vinte ou trinta contos pra comprar a camiseta e rachar a tinta e a tela de silk.

Mas e daí? Onde estavam as dezenas, centenas de gatas? Todas no Germes ou no Poleirão, claro. Ficou evidente desde o início: Bakunin e Proudhon não iam ajudar a gente a comer ninguém. E, pra piorar, um vizinho reacionário ficou chamando a gente de depravados donzelos. Tudo por culpa do meu irmão mais novo, Joãozinho, agregado ao bloco e flagrado a cochilar numa calçada em plena festa, mal passava das dez da noite.

Indiferença vá lá. Mas ser alvos de uma ironia fascista como aquela era uma sacanagem com a revolução. Era preciso uma resposta à altura, e ela veio na forma da mais definitiva das vinganças: o desprezo. Dali em diante não se falaria mais em anarquismo em território brumadense.  As ruas e praças da cidade não veriam mais o Depravado, não teriam a chance de vislumbrar a verdade sobre os males do Estado e de toda forma de poder. A revolução estava cancelada naquele quadrante. Para sempre.

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 A paixão no século XXI

Messias não é quem você pensa: ele tem esse nome mas a sua paixão, por exemplo, é outra. E é, para embaralhar as cartas, uma paixão platônica. Uma não, várias: Messias é apaixonado por muitas mulheres e por homens também. Por isso ainda é virgem: não consegue se decidir.

Ele talvez seja a reencarnação de um cara muito famoso cuja vida e morte está na ponta de língua de milhões de pessoas ao redor do mundo. Mas, se isso for verdade, os desígnios do universo estão agora muito mais misteriosos porque esse Messias é uma espécie de jovem geração Y: gente boa, multi-tarefa, desapegado das coisas e, por isso mesmo, incapaz de maiores arroubos. Tem milhares de seguidores no Twitter, daí essa história de Messias. Não tem a menor ideia, no entanto, sobre a mensagem a ser transmitida a todo esse rebanho.

Conversei vagamente com esse Messias descolado e ele disse não ter paciência pra religião. Ponto pra ele, pelo menos a meu ver. Não iria se insurgir, por exemplo, contra os vendilhões do templo, até porque considera os tais vendilhões apenas uma nova espécie de empresários. E não vê problema na atividade empresarial, embora pudesse viver ‘de boa’ num ambiente socialista ou numa comunidade alternativa. Talvez estranhasse os primeiros cristãos: muito ideológicos, em sua opinião.

Jamais cogitaria morrer na cruz ou em qualquer atualização desse instrumento de tortura. Acha legítimo o trabalho das garotas de programa, mas também não é a sua ir pra cama com nenhuma Maria Madalena. Não tem a menor ideia, por outro lado, das motivações desse seu celibato aos 20 anos. Poderia transar agora mesmo, com uma mulher ou até com um homem, se lhe desse na telha.

Sobre política, aí sim: também é favorável a ‘dar a César o que é de César’. Embora, contraditório como só ele, ande por aí com a estampa do Che na camiseta vermelha e cultive uma barba de aparência militante. Em termos de estética é mais complexo: gosta de tudo, de Elomar a Bob Marley, de Mussorgsky a Frank Zappa, de Radiohead a Caetano, de Roberto Carlos a Gerônimo. Leitura predileta: Paul Auster. Levaria um quadro de Vermeer pruma ilha deserta.

Sobre drogas e família, tem uma opinião bem curiosa: podem ser, umas e outra, bastante perigosas. Por isso recomenda o uso de ambas com moderação. É contra a violência, mas também acha bobeira levar desaforo pra casa. Resolveria o conflito palestino-israelense convidando os dois povos pruma grande rave de sete dias ininterruptos no deserto, embora ele próprio fique entediado já na segunda hora de música previsível.

Mora em Salvador, mas poderia tranquilamente ir parar em Cabul – mulheres de burka não são o fim do mundo em sua opinião. A humanidade e os bichos não estão assim tão distantes em termos espirituais, avalia, ponderando entretanto sobre suas dúvidas a respeito de haver ou não vida espiritual. Dito isso, considera certos cães e gatos bem mais evoluídos na comparação com as pessoas em geral.

Vá entender esse Messias!

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Fogueira cívica 

Não me entenda mal, mas aquele cara queimando a bandeira nacional em Brasília me fez pensar em utopias. Ok, não há mais espaço para utopias nesse mundo absolutamente pragmático. Somos todos, como no poema em linha reta, gente bem sucedida – e pra pensar assim é preciso admitir a parafernália inteira: o famigerado sistema com seus pontos a conquistar, suas verdades a defender. É utopia pensar em abolir – de verdade –  distinções entre as pessoas. Bobagem imaginar aquele cara como um Quixote hipotético, queimando bandeiras para nos alertar contra os males do nacionalismo e de todos os ismos.

Ok, não me entenda mal, não escrevo a soldo da CIA para corroer as nossas combalidas reservas cívicas. Não se trata de ser quinta-coluna do capitalismo transnacional, desrespeitando fronteiras em prol das grandes corporações. Se ainda vivêssemos na guerra fria, certamente teria de negar também vinculações com os ardis de Moscou para minar os pilares do país, no compasso da internacional socialista. Ah, sim, e nem tampouco essa minha inspiração incendiária teria sido obra de Bin Laden, a mente ardilosa dedicada a submeter o mundo ao Islã.

Desculpe, mas a ideia de queimar bandeiras é tentadora demais para se perder assim, sem um registro sequer. É irresistível pensar em uma grande conspiração de antipatriotas e antifascistas a promoverem atentados anticívicos ao redor do mundo. A bandeira do seu país, do seu partido, da sua crença, da sua empresa, do seu time: toda bandeira sendo impiedosamente engolida por línguas de fogo e o maluco do incendiário satisfeito, feliz da vida com a certeza de estar sendo compreendido pelas pessoas.

Tá certo, os guardas chegam e pegam o cara e, a depender do país, do partido, da crença, da empresa, do time, ele pode realmente se dar mal. Aí, diante de tantos mártires por causa de um mero pedaço de pano, a (des) organização dedicada a colocar em marcha esse exército Brancaleone resolve mudar de estratégia e define como alvos preferenciais as bandeiras  impalpáveis. De agora em diante nos dedicaremos a tacar fogo em ideias: todas essas palavras de ordem capazes de colocar as pessoas em filas indianas virtuais, e de fazê-las reagir automaticamente, de acordo com o esquema programado.

Fique na sua, não vamos fazer mal nenhum a ninguém, dirão os utopistas. Essa queima total pode avariar seriamente o capitalismo, mas isso não é ruim como possa parecer. Deixará chamuscado também o pensamento de esquerda, mas veja, a esquerda não deveria ser defendida como se fosse uma espécie de religião. E quanto às religiões: elas também perderão substância caso dê certo a proposta de reduzir a cinzas preconceitos e intolerâncias. Estaremos finalmente reduzidos a nós mesmos e à maravilha de pensarmos por nós mesmos, e isso põe em xeque as torcidas organizadas.

Ai, ai, ai, e por favor não chame a patrulha, isso aqui não é pra valer. É bem plausível a versão corrente sobre o incendiário de Brasília. Teria alegado perseguição política ou algo assim como razão para protestar queimando a bandeira pátria. Teria sido preso por danos ao patrimônio público, nada mais. Teria negado, aos arapongas, qualquer relação entre o seu gesto e a insidiosa (des) organização planetária cujos membros abominam bandeiras, todas elas. Teria sido deportado para uma prisão ultra-secreta, Guantánamo perde, onde esses terroristas precisam ser mantidos incomunicáveis em nome da sanidade mental no mundo como o conhecemos.

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