O fundo do tempo

Sob o céu dessa tarde, novembro

me esbulha. Não sei senão gestos

aprendidos com o tempo. Palavras

que talvez anjos. Houve um sopro

quando vim ao mundo ele veio do

fundo do tempo,  de onde escapam

frágeis inocências. Fui um deus e

deixei de sê-lo. Um verme, e me fartei

também. Parei no entreato, onde

reluto. Entre parêntesis, asteriscos,

pontos e vírgulas toda a vontade

todos os dias a tarde nublada neste

parêntesis. Ensaio dançar no espaço

exíguo no aquário sob as nuvens. Mas

novembro me fisga, me lança,

me esconde. Me diz: olha que a noite,

olha que a noite. Eu trago um cigarro

que ficará intacto pelo resto

do dia.

.

Imagem: Sapatos, de Van Gogh.

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4 Comentários

Arquivado em Poesia

4 Respostas para “O fundo do tempo

  1. EXCELENTE POEMA. E,JÁ AGORA: NÃO QUER OU NÃO PODE MAIS ESTAR NA LISTA?
    UM ABRAÇO

  2. O primeiro parágrafo desse seu poema já vale mais do que meu bloguinho inteiro. O último o dobro.

  3. Delícia de poema, Nilson, que delícia.

    Bj pra você.

  4. Yanara

    Sem palavras para expressar minha admiração por este poema.
    Yanara

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