Maria

Foi tão pouco tempo, afinal de contas. Mas como afinal medir o tempo, se a impressão é a de uma convivência de décadas, um aprendizado ali, a cada gesto, a cada palavra, de uma pessoa inteira que não era santa, pois aqui não se trata de hagiografia depois da morte, mas era especial, sim, plugada na realidade como poucas que eu saiba.

Nos conhecemos graças aos blogues. Ela generosa, fotógrafa renomada, escritora de dois livros pela Record, e ali sem qualquer pejo, postando e postando seus continhos pra cão dormir. Pra variar foi Marcus Gusmão, que me convenceu a ter um blog, quem travou contato com Maria Sampaio blogueira, e foi tudo tão rápido que de repente estávamos ali, na mesa da pizzaria, reunidos depois do lançamento do livro de Renata Belmonte para nos conhecermos pessoalmente, eu, ela, Marcus, seus primos Bernardo Guimarães e Miro Paternostro. Martha Galrão, que já tinha ido quando chegamos, eu só ia conhecer depois. Todos nós, que só nos falávamos na blogosfera: é-amigos, com acento no “e”, bem baianamente, como tinha de ser em se tratando de denominar um círculo freqüentado por ela.

E foi rápido assim que ela me mandou um e-mail pedindo uns textos, depois contou do convite de Claudius Portugal pra lançar um livro pela coleção Cartas Bahianas. E contou que tinha, sei lá, combinado com ele que indicaria alguém pro outro livro a ser lançado no mesmo dia. E ela me disse, naquele jeito despachado, que tinha pensado em mim e que eu fizesse nova organização dos textos. Recomendou que arrumasse bem,cada poema numa página, pra encaminhar a Claudius. A palavra final era dele, tínhamos que convencê-lo. E foi assim, com uma advogada tenaz, que saí do blog pra estante: arte de Maria.

Arte de desprendimento: foi sem pestanejar que ela topou a ideia de Marcus, algo arriscada, de fazer um blog do lançamento onde as pessoas poderiam reservar os livros. Ela topou, nós fizemos, Marcus, animado, gravou vídeos em que recitávamos nossos textos. Fomos pro Youtube e no final deu tudo certo: cem reservas de cada livro, cerca de duzentos de cada vendidos ao todo no lançamento. Maria vendeu algumas dezenas a mais. Lógico, pois a estrela era ela, meia Bahia mobilizada.

Eu ali, feliz. Pelo livro, mas também pela amizade forte, instantânea. Nunca tinha me sentido tão à vontade com alguém em tão pouco tempo, nunca foi tão evidente essa história de que a amizade se pauta, deveria se pautar, pela admiração. Junto com a pessoa, admirei Maria a cada livro. Tinha lido “Rosália Roseiral”, e depois “Estrela de Ana Brasila”, acompanhei a gênese dos livros Continhos, I e II. Me impressionaram a personalidade, a originalidade, a inventividade da escrita. Era – é – um orgulho a sensação de ter convivido com essa pessoa tão cara, essa escritora seminal que o tempo só fará maior e maior, tenho certeza.

É tão difícil conceber que ela se foi. Mas é verdade, se foi. Passou pela vida como uma brisa forte, que não se detém nos obstáculos, mas rompe as barreiras de um jeito paradoxalmente suave. Deixou a Bahia sem aquele jeito. Me deixou maior e mais velho, e mais jovem também.

Sua falta me desnorteia. Maria sem rodeios, direto ao ponto. Única.

Foto: Iracema Chequer/A Tarde

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6 Comentários

Arquivado em Poesia

6 Respostas para “Maria

  1. Maria sem rodeios, única. Como não repetir? Como não fazer ecoar isso no mundo? Saudades, muitas saudades.

  2. Kátia Borges (crear)

    A gente que aprenda com a arte e a poesia a atravessar esse luto e os trechos difíceis da vida, como a perda de alguém tão especial e querida como Maria.

  3. Edu

    Pois bem, graças a ela eu tive contato com esse povo todo da blogosfera, pessoas que me fazem falta se eu demoro a visitar as páginas, se demoram a me falar coisas. É como uma mágica, uma realidade não entendida por quem não vive isso. Sentir o carinho de todos a cada encontro, mesmo que breve… tudo isso é tão Maria!

  4. Gerana

    Sinto exatamente como vc escreveu: ” a impressão é a de uma convivência de décadas”.

  5. Maria foi capaz de proporcionar uma tristeza produtora de lindos textos. O teu e o de outros amigos, as homenagens não param de me emocionar.

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