Noite de Estrelas (para Van Gogh)

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“Noite de estrelas”, de Van Gogh (1889)

O que reflete é sombra que reflete.

O que vê seus olhos mudam.

Cai o pano,

vibra a réstia do sol do dia quando sextas claras

são truques de diabos com lanternas:

quando o amanhecer incendeia o trigal

feito de palha asperamente urdida para fustigar os sentidos,

feito para apagar toda vontade que não seja a dor por inteiro,

o amor contra os campos de delírios amarelos.

Tua fé em verde, em azul, em laranja – em dissolução a tua fé.

Alguém dormindo, o que tenta em vão não ser.

Se tens poder sobre toda a cena,

ele se perde quando há jogos com a luz, como esse de já não ver.

Se buscas o significado, o que há são contornos de muitas coisas.

Podes entrar na casa sem medo de entrar,

e abrir nela a porta que não devia.

Podes pirraçar a consciência com fósforos,

milhares deles acesos para cigarros imaginários, para

assoprar o teu halo intestino do corpo (meio besta).

Olhas o pincel e o que se pintou não é o que pensas de ti mesmo.

Como Cristo crispado de chagas inestancáveis,

e não como Cristo contra os vendilhões.

Pois se há luz – e reflete – é preciso toldar o céu,

para ver como fica inexato esse teu desespero.

Experimenta olhar pelos buracos da lona do circo,

ou auscultar o leão, se te dás conta da tentação de escorregar goela abaixo

para o escuro, onde se poderia não ver o que não se quer ver.

(Poema escrito há mais de dez anos, certamente, reflexo do amor pela obra desse maluco iluminado, Vincent Van. Trago de volta a propósito do relato de Janaína Amado sobre visita ao quarto do pintor na clínica onde ficou internado. Estranhei o tom do poema – aquela história de quase parecer que foi outra pessoa. Não sei se gosto dele por ele ou por ser uma espécie de bilhete – meio grandiloquente, exagerado mesmo, pretensioso talvez – para Van Gogh. Acho que sempre pensei nesse cara como um amigo mais velho, piradão, totalmente honesto, íntegro-desintegrado pela cabeça a ponto de explodir, genial de uma maneira particular, capaz de ver o mundo brilhando o tempo todo, brilhando insuportavelmente.  Evoé, Vincent!!!).

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7 Comentários

Arquivado em Poesia

7 Respostas para “Noite de Estrelas (para Van Gogh)

  1. Oi, Nilson, ói eu aqui, falou em Van Gogh, tô presente! Seu post-poema também me estimulou, vou voltar ao nosso pintor favorito em breve.

  2. Turbilhão de estrelas, sentimentos. Cada verso uma explosão. Cada verso para ser lido um dia de cada vez. Há um Van Gogh em você. Parabéns, pela milésima vez.

  3. Concordo com Aeronauta: há um Van Gogh em voce.
    O poema é uma leitura dele e voce soube bem traduzí-lo. Sempre que voltar aqui vou relê-lo. Também gosto muito das cores, da construção da obra e também da personalidade intrigante e instigante.
    Obrigada pela visita à exposição. É sempre uma alegria saber que alguém viu, se interessou e comentou o meu trabalho.

  4. escolheu esta pintura como eu faria. de van gogh, gosto de tudo que já vi. com seu poema, a obra do mestre fica mais perto de mim.

  5. Oi, primeira vez aqui no BLAG.
    Gostei do teu blogue. Abraço!

  6. Leio um poema derramado ( eu gosto de poemas derramados) que chama leituras várias. Quantas vezes damos parabéns aqui ao poeta: esta é mais uma vez.

  7. Pelas lonas do circo…vamos a nos perder

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