Doidão

Tínhamos 16, 17 anos e nosso grande ídolo, em plenos anos 80, não era um nome do rock, mas uma espécie de antítese dessas estrelas pop: um conquistense turrão com uma obra retrô, que falava de reis, rainhas e vaqueiros, fazia basicamente referências à Bíblia e às agruras da vida sertaneja e usava e abusava do vocabulário da roça. Um cara que parecia não apenas compor, mas pensar como um menestrel da Idade Média e, reacionário, esculhambava tudo que soava “muderno” e colonizado, inclusive e principalmente o uso de expressões em inglês.

Era o tempo de andar pra cima e pra baixo de rádio-gravador a tiracolo, tipo os negros novaiorquinos que dançavam break na rua com o sonzão portátil. Um dia o meu amigo Rogério trouxe “Das barrancas do rio Gavião” numa fita cassete e foi assim, batendo perna em Brumado, que fiquei conhecendo Elomar. Não vou dar uma de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé, que de vez em quando contam dos orgasmos múltiplos que tiveram na primeira vez que ouviram “Chega de Saudade”, de João Gilberto. Mas que foi uma espécie de epifania, foi. Foi tanto que até hoje ainda fico besta de ouvir aquele disco, e uma das faixas,”Cantada”, é a única música que sei cantar de cor, a letra inteira (veja lá embaixo).

Virou febre: toda hora aparecia uma novidade. Os discos de Cantoria, outros discos de Elomar. Um colega de 2 de Julho que era músico, Geisan, e que depois foi pros USA e nunca mais entrou em contato, me deu de presente a edição luxuosa do “Auto da Catingueira”, que tá lá em casa até hoje – em vinil, claro, que naquele tempo não tinha CD. Roberto Audi, locutor da emissora Polissom, que divertia o povo de Brumado com caixas de som penduradas nos postes, enfiava Elomar e Xangai na programação, entre um sertanejo e outro. Lembro de Nadja Vladi, amiga dos tempos da Facom, irritada com aquele negócio de “plantar feijão no pó”. Lembro de Roberto, figuraça, tirando sarro porque Caetano também frequentava as nossas fitas cassete: “Rapaz, Elomar não aprova Veloso…”

Duas décadas depois e Elomar continua lá, firme e forte no meu panteão. Dividindo espaço com The Doors, The Cure, Beatles, Pink Floyd, Chico Science, Raul Seixas, Caetano, Cazuza, Tom Zé e outras referências desencontradas. O bode véio certamente não iria aprovar se soubesse dessas companhias, mas o fato é que pra mim nunca foi uma questão de cultuar o cara por causa do purismo. Tá mais pra cultuar apesar do purismo.

Tudo isso pra dizer que hoje tem Elomar no TCA, que Vespasiano Neto acaba de ligar dizendo que só tem lugar nas filas Z e que ia reservar os ingressos, senão esgotava. Já tô garantindo o meu. Acho que Marcus também vai. E eu, tipo adolescente: feliz da vida porque vou ver o cara mais doidão da música brasileira, aliás do planeta inteiro: esse malungo do Elomar.

PS: Marcus Gusmão, meu personal blog trainer (desculpa aí, Elomar!), sugere colocar esses links pra facilitar a vida do leitor:

Porteira oficial de Elomar:

http://www.elomar.com.br

Fundação casa dos carneiros:

http://www.casadoscarneiros.org.br/interface/capa.asp

Cantada

Elomar

E então desperto e abro a janela
ânsias, amores, alucinações
Desperta amada que a luz da vela
Tá se apagando chamando você
Está chamando apenas para vê-la morrer por teu viver.
Amada acende um coração amante
que o som suave de uma aurora distante
estremeceu aqui no peito meu
Os galos cantam pra fazer que a aurora
Rompa com noite e mande a lua embora
Os galos cantam, amada, o mais instante
O peito arfante cessa e eu vou me embora
Vem namorada que a madrugada
ficou mais roxa que dos olhos teus as pálpebras cansadas
Amada atende um coração em festa
que em minha alcova entra nesse instante
pela janela tudo que me resta
Uma lua nova e outra minguante
Ai namorada nesta madrugada
não haverá prantos nem lamentações
Os teus encantos vão virar meus cantos
voar pra os céus e ser constelações
Ai namorada nesta madrugada incendiaram-se os olhos meus
Não sei porque você um quase nada
do universo perdido nos céus
apaga estrelas, luas e alvoradas
e enche de luz radiosa os olhos meus
Mulher formosa nesta madrugada
Somos apenas mistérios de Deus

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6 Comentários

Arquivado em Poesia

6 Respostas para “Doidão

  1. Katia Borges

    Não conheço muito dele, não. Vou tentar conhecer mais a partir de agora. Beijão, Nilson, e um Natal de paz e saúde pra vc, Emília, Caio e Chico.

    O cabra é bão! Bom Natal tb pra você e os seus, Kátia!

  2. Nilson, fala para o seu amigo reservar mais dois ingressos aí, véi, que tô numa correria da zorra aqui.

  3. Rapaz, às vezes dá até vontade de acreditar em Deus. Logo após colocar o pidido aqui, um amigo me ligou dizendo que tinha dois convites pra mim.

    É o Grande Deus de Abraão, velho. Nos vemos por lá.

  4. Pingback: Sobrou para a donzela, ou não. «

  5. Também conheci Elomar num K-7, emprestado por um colega de Urandi. Foi encantamento à primeira escuta, em 1976. Perdi o show e o discurso! Grande abraço, c.

  6. Pingback: Elomarianas Cap. 3 Noite de louvor à beleza | Ingresia

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