Annus hospitalaris

Parafraseando John Fante, 2008 foi um ano difícil. Nunca tinha passado tanto tempo em hospitais, e olhe que não fiquei internado um único dia.

            Minha mãe veio do interior com minha irmã, excepcional, que teve uma febre inexplicável de meses. Muitos médicos, muitas suposições, de prático só um tratamento dentário e um início de tratamento-teste de tuberculose extra-pulmonar. Um dia, depois de meses por aqui e antes de concluir a investigação com a oncologista, a última especialização consultada após uma longa lista de istas, minha mãe se retou e foi pra Brumado. A febre começara a sumir, milagrosamente. Uma hipótese é que tenha sido emocional: Neinha exigiu a nossa atenção, veio, ficou com a gente por aqui, indo e voltando de médicos, e depois foi pra casa, retomou a Apae que tinha sido abandonada por descrença dos velhos e tá lá, feliz e sem febre.

            Quer mais? Teve também Dodó, minha segunda mãe, que veio em agosto de 2007 com os rins batendo biela, tipo despedidas definitivas dos irmãos em Caetité, com Luísa, minha prima-irmã Luísa aos prantos porque parecia mesmo que era o fim. Hemodiálise aos 80: rola? Se rola: taí, firme e forte, tendo atravessado esse 2008 que em seu caso começou antes, um 2008 que exigiu uns ajustes e uns trancos na família pra viabilizar a permanência de Dodó por aqui, mas está entregando a paciente bem viva, que é o que importa: diálise terça, quinta e sábado. Meu turno pra ir buscar é sábado de tarde, fora o suporte nas eventuais temporadas no Espanhol, como no mês passado.

            (Teve também Márcia, mas essa dor já foi dita aqui, e também já foi dito que no caso dela eu nunca tinha acreditado tanto na medicina. Acho que era fé. Você pode não acreditar em deus, mas atire a primeira pedra quem não tem de vez em quando uns ataques incontroláveis de fé).

            Digo assim, 2008 foi, porque tanta coisa aconteceu que é como se já tivesse passado. De agora em diante, sinto, o que vier será 2009, mesmo que ainda reste dezembro. O mês inteiro de dezembro.

            Ainda no terreno hospitalar, aliás. É que dezembro traz na pauta a cirurgia do meu pai: o objetivo é arrancar um aneurisma bilobular da aorta, na altura do abdômen. Foi em 2008 que tentamos fazer isso com o método mais novo, duas pequenas incisões, uma em cada coxa, por uma passava o cateter com uma microcâmara, por outra, o catéter com a prótese, que lá na frente se encontrariam e… bingo!, adeus aneurisma, de um jeito magicamente simples, sutil. Paredes calcificadas impediram essa beleza de desfecho. Agora é faca: abre a barriga octogenária, afasta o estômago, o intestino e que víscera mais estiver no caminho, garroteia a aorta, corta, e aí encaixa a prótese pra ligar as pontas, mais ou menos como se emenda uma mangueira de jardim. Bota tudo no lugar, costura e aí torce pra hipertensão ficar na dela, e o coração segurar o tranco da anestesia geral.

            A data ainda não foi definida: depende do hospital, do médico e do plano de saúde. Mas depende só disso, e haja coração pra tomar todas as providências e encarar, de novo, esses aprazíveis ambientes hospitalares. Torço pra que seja como nos casos de Neinha e de Dodó: que o desassossego se resolva em alívio, ufa!, tudo sob controle. O cardiologista que acompanha seu Pedro Galvão há 17 anos, desde o derrame em 91, diz que o cirurgião nunca perdeu um paciente dele… ufa!

            É isso: que venha dezembro. Que 2009, depois desse começo antecipado, nos libere de hospitais por uns tempos.

            Assim seja!

Anúncios

9 Comentários

Arquivado em Poesia

9 Respostas para “Annus hospitalaris

  1. É isso aí, Nilson. Será chave de ouro hospitalar com o sucesso da cirurgia de seu pai. E que 2009 venha com duas quentes e três fervendo de coisas boas. Beijos de Maria

  2. Katia Borges

    Pra mim também foi assim, Nilson. Anemia braba no primeiro semestre, uma operação em abril e, agorinha, mês passado, uma conjuntive viral aguda, que me deixou de molho 15 dias. 2009 será melhor com fé em Deus.

  3. Bernardo

    já comigo, fora meu lumbago cronico, tive uma gripe de 46 dias, tipo as que tinha quando fumante. aprendi com minha mãe a temer os anos impares. dedos cruzados!

  4. Meu pai dizia que a vida é cheia de fases, o importante é saber conviver com elas.
    Terminada a fase, virá, seguramente, uma outra: que ela seja mais feliz!

  5. Boa sorte, Nilson, para a cirurgia de seu pai e um 2009 mais saudável para todos nós! Ab, c.

  6. Soraya

    Boa Sorte, Nilson. E qualquer coisa é só chamar.

  7. Luisa

    Concordo com os comentários: vai dar tudo certo com o tratamento de Pedro Galvão. E que seus amigos saibam que você representa um “porto seguro” pra todos da família (acho que não só), um exemplo a ser seguido. Sua generosidade, presença constante, companheirismo, doação, sensatez, cumplicidade, fazem com que a turma cá de Brumado e Caetité fique tranquila. Tomara que em 2009 você consiga ter um pouco mais de sossêgo. Se isso acontecer, todos nós seremos beneficiados.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s