Parafernália

Nem bem começamos a ser e nem bem nos damos conta disso

e nem bem ficamos acordados um dia, olhos bem abertos

para cada movimento das pessoas, objetos, sombras, o sol em

seu máximo efeito sobre o mundo mineral que pulsa e

a matéria orgânica que pulsa também, isso de ficarmos

evocando um sentimento abissal, o que defina o mundo e nos

defina, o sentimento dos sentimentos o cerne da tarde

que nos fez entrever o que exige muito de nós para ser visto,

algo como um extremo rigor de estilo, quer dizer, a arte de

traçar um fio entre o que nem bem começou a ser e o que

deixa de ser e em definitivo deixa de ser, o que não se entende,

que não é desejável de forma nenhuma que se entenda,

tão banal como tudo na vida e por isso mesmo impermeável

ao entendimento, como alguém que se descobre e deixa o

sol invadir todos os cômodos e deixa tudo às claras e

aquecidas as prateleiras da estante de livros envelhecidos e

histórias empoeiradas de gente sonhando com toda a energia

de começar a ser com todo o vigor, começar a ser e toda a

glória e a imensidade de movimentos sutis e revoluções

tectônicas e negociações com tudo em volta e inclusive todas as

possibilidades de si e cálculos milimétricos e gestos ensaiados

à exaustão e o olho treinado no espelho das relações pra saber

exatamente como se faz e como se decodifica o que se faz e

se empreende, de preferência num dia qualquer sem qualquer

cerimônia, a irresistível jornada de começar a ser.

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3 Comentários

Arquivado em Poesia

3 Respostas para “Parafernália

  1. Gosto destes textos meio loucos, em que o autor deixa sair tudo do jeito que vem. A mim, que sou controlada, me faz bem escrever textos assim. Este seu tá legal.
    Nilson, foi você que visitou meu blog ontem, deixando um comentário no post do poema do Solano Trindade, não foi? Pergunto porque, quando a gente clica lá sobre o seu nome, ele não remete aqui ao seu blog. Veja como corrigir isso – não posso ajudá-lo, pois sou interanta legítima, mas tem uns cobras em blogs listados aí ao lado (e obrigada pelo link pro meu blog também, viu?). Abraços.

    Oi, Janaína, o comentário é meu, mesmo. De fato não sei bem como fazer essas coisas que os nossos amigos aí do lado fazem com as mãos amarradas nas costas. Vou tentar. E quanto ao link, não há de que: a idéia não é mostrar as páginas que a gente gosta de ver?

  2. queria ser só
    o que de vento se veste:
    poeira, grão, semente, algodão.

    queria ser só
    o que flutua:
    pena, flauta, balão.

    no dia ser borboleta
    na noite mariposa,
    só delicadeza eu seria:
    vaga-lume, orvalho, seixo, lágrima, canção.

    mas também sou tudo que padece:
    pedra, amargura, solidão.

    mas também sou tudo que afunda:
    pedra, cadáver, escuridão.

    Martha

    Lindo, Martha! E uma boa resposta a essa parafernália aí em cima!

  3. tistu

    e eu quero ser como você quando crescer! rs
    foi a última vez que puxei o saco, juro. da próxima, serei acho, estou aprendendo a ser blasé. (ser ser ser)
    Natália

    Que nada, menina. Mas o bom mesmo é saber q vc gostou!

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