Márcia

O poema aí embaixo foi escrito na semana passada. Era uma espécie de mantra particular, uma vã tentativa de evocar o que quer que fosse de dentro de Márcia, essa amiga querida cuja força vital era tanta que parecia sobrepujar a morte, e cujo brilho não se apaga, esse brilho da extrema generosidade, da solidariedade irrefletida, da mente ágil e daquilo que chamam de inteligência emocional e que talvez estivesse encarnado nela como em nenhum desses textos de psicologia. Apesar do câncer, das sucessivas más notícias, tínhamos essa fé quase religiosa em sua capacidade de dar a volta por cima, e, como dizia Marcus, sair por aí mais uma vez, leve e serelepe. Para de novo dispensar a todos a atenção de quem cuida, raramente a de quem demanda cuidados. Têm sido horas febris, inacreditáveis: a morte é inacreditável; a de Márcia, a despeito da doença, mais que a de qualquer um de nós. Mas ela ainda vive intensamente para mim, e o poema que ela não leu ainda é um tributo a essa sua beleza de bicho da vida. O blogue está de luto e vai dar um tempo. Saudade absurda de Márcia.

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5 Comentários

Arquivado em Poesia

5 Respostas para “Márcia

  1. Luisa

    Centenas de poetas têm falado sobre a brevidade da existência, e o que suas imagens elaboradas têm a dizer é que tudo é vaidade, que temos apenas uma hora para nos exibir no palco, que os dias de intensa alegria e camaradagem dasaparecem rapidamente, que devemos morrer. Todos sabem disso, mas administrar o vazio e a saudade que causam uma perda, uma perda de alguém tão especial, é uma tarefa terrivelmente dolorosa.
    Tive pouco contato com Márcia, mas o suficiente pra nunca me esquecer que ela era uma dessas raras pessoas adoráveis que Deus nos dá o privilégio de conhecer na nossa breve existência. Também fiquei e estou muito triste. Lembrei-me imediatamente de um poema que lí e guardei tempos atrás, escrito por Louis Frederick MacNeice(britânico), que bem poderia ter sido escrito por Márcia na sua última partida:

    A luz do sol no jardim
    Perde a suavidade e fica gelada,
    Não podemos capturar o minuto
    Dentro da sua rede de ouro,
    Quando tudo já foi dito
    Não podemos implorar perdão.

    Nossa liberdade como free-lancers
    Caminha para o fim;
    A terra atrai impiedosa
    Sonetos, e pássaros descem;
    E logo, amigo,
    Não teremos tempo para danças.

    O céu era bom para voar
    Desafiando os sinos das igrejas
    E todas as cruéis sereias
    de ferro e o que eles dizem:
    A terra chama,
    Estamos morrendo, morrendo.

    E sem esperar perdão
    De novo enrijecido em terra,
    Mas feliz por ter sentado sob
    Trovões e chuva com você,
    E agradecido também
    Pela luz do sol no jardim.

  2. tistu

    Te chamarei amigo (na dor somos todos solidários) pois passamos pelo mesmo com um amigo querido, que se foi há pouco. E sempre parece que ele pode aparcer do nada, para brincar e tirar com a nossa cara. Aqueles que vão com ou sem aviso, serão exemplo e sempre mais brilhantes.
    sinto muito, mesmo sem conhecê-la. sinto por todos.

  3. Joyce

    É horrível acordar e constatar que não foi um pesadelo. Buscar, em vão, por algo que traga a certeza que Marcita está lá, na casa ou no trabalho, sempre entre amigos, “leve e serelepe”, antenada ao dia-a-dia, encantando a todos com seu jeito único. Ter compartilhado a amizade e muitos momentos foi um enorme presente que agradeço a Deus.

  4. Nilson, não conheci a querida amiga de vocês, mas dá um nó na garganta acompanhar tudo isso, uma sensação de luto, de vazio. Que Deus e os anjos iluminem o caminho dela.

  5. Katia Borges

    Nilson, te vi lá no Madame e fiquei feliz. Seguir adiante, cada um no seu ritmo, é o mais simples, o mais complicado, e o necessário. Beijo enorme!

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