Outras casas, por Madamek e Aeronauta

A Casa Antiga (Kátia Borges)

Vivia em conserto,
a casa antiga.
Mudavam as telhas,
compravam madeira,
renovavam as ripas,
ajeitavam a cumieira.
 
A casa antiga, apenas
25 metros quadrados,
era tudo que restara
do passado, da família,
na vila, na vida. E não havia
outro modo de ter um teto.

Feito enxurrada, mais
e mais trocados iam
na eterna reforma.
E as janelas caindo,
o beiral carcomido, 
o caibro, a terça, o pendural.

E pedreiros amigos
visitando as lojas,
o carro cheio de tijolos,
meio torto, e a casa antiga.
De nada adiantava
pintar paredes e portas
pôr cores sóbrias,
caprichar na tinta.

A cada chuva, o mofo
brotava do invísivel,
esparramando negro,
venenoso visgo, engolindo
todo esforço de mudança
e viço. Eram fantasmas,
ou memórias, que escorriam,
corroendo as novas vigas.

Até tornar ir embora imperativo.

É quase outubro (Aeronauta)

Vou lá em casa e já volto. A porta está no trinco: é só puxar o cordãozinho e entrar. O chão, vermelho e encerado, brilha. Dá até pena pisar com essa sandália suja de rua. Vou entrando, e nem preciso chamar por mãe, sei que ela está no fundo da casa, sinto o cheiro de café pronto. São nove e vinte da manhã, e ainda deve ter café na mesa. Pai está no sindicato e mãe preparando o almoço, agoniada como sempre. Às dez, dez e meia, e o almoço já prontinho da silva! Mas ainda não quero saber de almoço, quero é o cuscuz que está na mesa me esperando. Mãe, ô mãe, resolvo chamar por ela, corredor adentro. Ela, na janelinha que dá para o rio, conversa com alguém que passa do outro lado. Conversa telefônica: uma grita e a outra responde. Essa janelinha é um charme: pequetitita, porém dá para ver o rio e a imensidão toda do lado de lá. Numa segunda-feira, na agonia horrorosa desse dia, mãe jogou um dinheirão pela tal janelinha. Disse que estava agoniada e fez sem querer. A sorte é que o dinheiro não caiu dentro do rio. “Acode, meninas, vão pegar o dinheiro lá embaixo!” Escuto esse eco até hoje. Ah, mãe… Sempre com o cabelinho curto, motivo pra pai ficar com raiva e dizer que mulher tem que ter cabelo comprido, que ela precisa deixar o cabelo crescer, que daquele jeito parece mais é um homem. E ela: “Sai disso, Bino! Tu já me conheceu assim! Papai é quem cortava meu cabelo!” Essa conversa se repetia, e eu dou risada agora, ao lembrar. Já estou subindo as escadas que dão para a salinha. Nessas escadas, pelos buracos da porta que dá acesso à chamada “salinha” e à cozinha, eu, aos sete anos, espiava pai tomar banho na caixa d’água. Depois mãe tampou todos os buracos com papel higiênico. Agora as portas estão abertas e eu vou entrando. Na salinha a abertura para os sanitários, a caixa d’água e o quintal. Ah, o velho pé de carambola continua balançando suas folhas mornas… Mãe, debruçada sobre sua horta, nem me vê entrar, entretida. O rio está cheio, ouço o murmúrio dele, e sinto o cheiro de terra e pedra molhadas. Mãe me vê e sorri. É quase outubro. Que vontade de ficar.

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9 Comentários

Arquivado em Poesia

9 Respostas para “Outras casas, por Madamek e Aeronauta

  1. Adorei o diálogo entre eles. Ficou uma nostalgia no ar.

  2. Puxa, Nilson, que lindo isso que você fez: uniu as casas, os sentimentos! Obrigada. Um grande abraço.

  3. Puxa, Nilson, que coisa linda você fez: uniu as casas, os sentimentos! Obrigada. Um grande abraço.

  4. Em todas as casas… a minha do tempo de minha mãe e meu pai (uma, sempre). Depois, procuras e reformas. Muitas.
    Grata a vocês três com um beijo e o carinho de
    Maria

  5. Oh, Nilson, meus comentários não estão indo!!

  6. Vou tentar reproduzir o que enviei num dos comentários: eu adorei essa homenagem sua. E essa reunião de casas e sentimentos me deixa mais preenchida de tudo!

  7. Marcus

    Os comentários de Aeronauta podem estar retidos como spam, como acontece lá no Licuri. Vá lá no gerenciador e libere.
    Enfim, de volta e satisfeito. Belos textos.

  8. Que bacana, belos textos, adorei a conversa.
    Beijos,
    M.

  9. Obrigada pelo lindo poema da Kátia, vou lá nela agradecer. O lindo texto de aeronauta eu já tinha lido. É bom citar textos assim, não é? Faz bem pra gente e pros outros. Parabéns.

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