Casa Tomada

PICT0318 por você.

Não resisti à tentação de mostrar o lado de fora da casa. Lá dentro vivem os tios. Dois deles se foram há pouco tempo, um troço espírita porque eram bêbados a vida inteira, os bêbados que preocuparam a família desde sempre, e morreram em circunstâncias distintas, em cidades distintas, em um intervalo de apenas uma semana, aparentemente por causa da pinga e confirmando todas as nossas mais sombrias premonições: Tio Betinho primeiro, o coração que não resistiu ao gelo da madrugada, por ter dormido numa sarjeta a um quarteirão da casa;  depois Tio Lelé, atropelado num acostamento de estrada em Conquista. Ambos com mais de 70 anos, como todos os demais, com exceção de JR, o caçula, que tem 65.

Tem muita história essa casa. Vovó Maria, por exemplo: é como se a qualquer momento pudesse abrir a porta e sorrir, feliz com a nossa chegada. Faz quinze anos que ela se foi, mas ainda ouço a sua risada e sinto o cheiro único do tempero, o gosto único do feijão-com-arroz-e-cortado que só ela sabia fazer e se foi junto com ela.

Quando li “Bestiário”, de Cortázar, fiquei besta porque o conto “Casa Tomada” evocava demais o clima da casa onde passei todas as minhas férias, dos quatro anos até a adolescência.

O conto é sensacional e começa assim:

Gostávamos da casa porque, além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.

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5 Comentários

Arquivado em Poesia

5 Respostas para “Casa Tomada

  1. Interessante: estava lendo e pensando no conto de Cortázar antes de chegar na parte em que você fala do Bestiário. Aproveito para perguntar de quem é a tradução do seu Bestiário. Explico: a edição brasileira está esgotada faz anos e eu traduzi o Bestiário inteiro, mandei para a Editora Cosac & Naify, não sem antes perguntar se interessava. Gostaria de saber se apareceu alguma nova edição.
    Belas palavras as suas para uma bela página da memória.

    Oi, Gerana, quanto ao texto linkado, te confesso que simplesmente linkei. Não sei quem fez essa tradução, mas fiquei curioso pra conhecer a sua.

  2. Que lindo seu texto, Nilson. Comovente. E a foto, tão simples e tão bonita. Valeu!

    Brigado, Maria. Acho que faz diferença quando a gente olha com carinho como no meu caso aí com a casa e seus habitantes, né não?

  3. Madame Katia Borges

    Memória é assim, linda e dolorida, evocada por música, cheiro, imagens, lugares… Lindo texto, Nilson.

    Valeu, Kátia. Brigado.

  4. Imaginei sua vovó Maria abrindo a porta e sorrindo… Eu entrei.

    Então provou o chimango com café preto na beira do fogão?! Tem que provar!

  5. Bernardo

    Fiz uma postagem sobre acasa de meus avós onde nasci e me criei ( Caquende 235 ) e que um dia, um prefeito autoritário demoliu em nome do “progresso” e na verdade em seu lugar se encontra um edifício de apartamentos de uma grande construtora. Guardo todos os sons, cores dos azulejos e odores. Casa é assim: fica para sempre, nem que seja na memória.

    Bernardo, somos uns românticos enamorados de velhas casas e seus encantos. Românticos irrecuperáveis!

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