Psicologia capenga

Ainda as muletas: eram duas, agora é uma. Esta semana espero ficar sem nenhuma, de volta às minhas próprias e sub-utilizadas pernas, obrigadas há mais de um mês a recorrer a esses apetrechos nada sutis.

E não é que agora, que estou usando apenas a da mão esquerda, me ocorre que algo mudou na minha própria atitude e na das pessoas a meu respeito? Digo principalmente das pessoas que estão fora do círculo íntimo, as conhecidas e as desconhecidas.

Eis a questão, de novo recorrendo a McLuhan: o meio é a mensagem.

Com duas muletas, meio curvado, limitado por ter as mão ocupadas, dependente total dessas pernas de aço, fiquei com pinta de carente. As pessoas enxergavam assim e era aquela profusão de atos de solidariedade cristã que descrevi num polêmico post lá atrás. Eu próprio ficava carente, mesmo: usar muletas temporariamente é um bom exercício de compaixão, de “sentir com” aqueles que precisam delas pela vida inteira, mas justamente por isso bate às vezes uma profunda irritação com o fato de que você simplesmente não pode correr como os demais (todo mundo conhece a piada do aleijadinho no circo? Aí o leão escapa, a galera fugindo em pânico, alguém grita “olha o aleijadinho” e ele, puto: “deixa o bicho escolher por conta própria, pô!”).

Uma muleta na mão esquerda: corpo ereto, meio torto, insolentemente torto, e a mão direita livre pra quem sabe domar o leão. A coisa muda porque lembra aqueles coronéis de antigamente, de bengala, mandando e desmandando. Isso assusta os cristãos, diria Nietszche. Necas de solidariedade com esse quase anti-cristo: e eu lá, brandindo o cajado feito um Moisés prestes a castigar os judeus ou a abrir em dois o Mar Vermelho. Ou, pra baixar a bola: segundo Emília, mais parecido com meu pai, que ficou com uma perna “esquecida” depois do derrame e tem uns acessos de ira de Antigo Testamento.

É isso. O título já avisava: capenga essa psicologia toda. 

P.S. 1: Pra quem resolver tirar onda, vou logo avisando: tenho praticado uma nova arte marcial, o kung fu muleta. Escreveu não leu, é pau na moleira!!!

P. S. 2: Dessa vez não tem foto, pra não mexer nos espíritos sensíveis, como Marcus Gusmão.

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5 Comentários

Arquivado em Poesia

5 Respostas para “Psicologia capenga

  1. Bernardo

    Eu nem posso tirar onda: passei por isso há pouquissimo tempo, tão pouco que ainda sinto a dor nas palmas da mão pelo peso de me arrastar. Subir escada então…
    Muleta só serve pra isso mesmo: dar porrada e apoiar o pé fudido quando a gente senta.

  2. Excelente a crônica “Psicologia capenga”.

  3. Marcus

    Que pena, devia ter foto, porque eu não consegui ainda ver a cena ao vivo. Até tentei procurar você naquela algazarra do Campo Grande ontem, com sua velha fantasia de Batman, em vão. Você foi de burca?

  4. Marcus

    E sobre este papo de blogar ou não blogar, esta grande questão em voga, veja lá meu comentário num dos posts sobre o assunto no Madame, onde lembro do tal e-mundo cunhado por você.

  5. Devo andar perto do jubileu de prata do uso das duas muletas por conta de acidente de carro. Foi. Há cerca de um ano uso bengala (provavelmente para sempre). Estou adorando o elegância, toda empertigada, toda linda. Para uma sinhôra é bom encontrar portas abertas…

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