Nariz de cera

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O fim do mundo não me seduz. Sou um otimista peculiar, penso que perdemos tempo com o inevitável. O fim do mundo é tão cotidiano, tão imune a escatologias.

 

Tenho um amigo que vê a morte como algo a ser vivido todos os dias por cada um de nós. Estamos morrendo, sempre, e isso é vital porque só com sucessivas reencarnações de nós mesmos, nessa vida e não em outra, poderemos suportar o peso que os pessimistas chamam de falta de sentido.

 

Não sei se tenho estrutura pra viver como apregoa esse meu amigo. Em geral não sabemos lidar com a insegurança, eu por exemplo estou mais para a criatura do conto de Kafka: maquinando sempre a melhor maneira de guarnecer o próprio esconderijo.

 

É paradoxal, mas é assim: de dentro do covil, cogitamos correr pela campina, sem garantias, sem futuro. Temos potencial para esses dois, digamos, estilos de vida.

 

Talvez a verborragia seja o efeito do tendão esgarçado em meu tornozelo, do pé engessado, das férias no estaleiro, da grana curta. E lendo Tchekhov: somos risíveis. Tendo acabado de ler Fante: na verdade, patéticos.

 

Mas há beleza no ser humano. Podemos conceber algo maior que a felicidade: a compreensão. Falo de um diabo de compreensão direta, e não do acúmulo de conhecimentos. Que podem ser alavancas ou empecilhos, veja bem.

 

Ok, padre, eis o mistério da fé. Ok, todos os sacerdotes e publicitários: quero me virar sozinho.

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