Pensa, Whitman

 

Pensa, Whitman, a poesia triunfou.

O homem só pode viver do que sonha,

e de sonhos é composta toda a trama

que há em volta. Toda maravilha

do mundo.

 

Calcula, Whitman. Toda a extensão do teu amor

não abarca a extensão do que veio e virá

para além dos teus versos. Mas

o amor, Whitman, foi inventado pela poesia,

e a ela deve tudo. A poesia

triunfou.

 

(À procura de uma imagem para ilustrar o poema, topei com essa aí de um blog legal em inglês, Golempoem. Depois de publicar a foto e os meus – modestos – versos, me dei conta do texto postado embaixo, do próprio Walt Whitman. Uma porrada, e essa foto com o olhar dele nos encarando combina perfeitamente com o desafio lançado. Não ouso traduzir, mas deu pra entender mesmo com o meu inglês the-book-is-on-the-table. Basicamente, ele diz que fez os versos para você que está lendo, no futuro, quando você é visível e ele tornou-se invisível. E diz que está ao seu lado neste exato momento em que você o lê. Aí você encara o olhar dele na foto: fantasmagórico! Olá, Whitman!!!)

Eis o poema:

Full of life now

Full of life, now, compact, visible,
I, forty years old the eighty-third Year of The States,
To one a century hence, or any number of centuries hence,
To you, yet unborn, these, seeking you.

When you read these, I, that was visible, am become invisible;
Now it is you, compact, visible, realizing my poems, seeking me;
Fancying how happy you were, if I could be with you, and become your comrade;
Be it as if I were with you. (Be not too certain but I am now with you.)

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8 Comentários

Arquivado em Poesia

8 Respostas para “Pensa, Whitman

  1. TAO

    Sempre incríveis, estas suas poesias…
    Saudades matadas a tiros de lirismo,
    Muito grato e parabéns!

  2. Marcus

    Desde que alguém tentou registrar algo numa pedra ou pergaminho deve ter pensado neste triângulo tempo/espaço. Num vétice, quem registra. No outro, quem decifra. E o terceiro é o encontro no tempo, é a mágica. Belo poema cara, e se a blogosfera não for um fogo de palha/bits, um terceiro encontro poderá acontecer, numa busca fortuíta ao google por volta de 2150.

  3. Esse papel de garimpeiro cai bem em quem se permite, mesmo quando crê no Alto – e isso, hoje, parece baixo demais -, deixar cairem os olhos: se eles dão “de cara” com um papel, mesmo que só numa fugidia lembrança, ainda que em branco, eis um poema sendo feito.

    —————-
    Calei.
    Emudeci.
    Fechei-me em mim.
    Vesti roupa apertada.
    Casei todos os botões.
    Levantei a gola.
    Desci a bainha.
    Apertei o cinto.
    Entrei numa caixa
    e ela foi lacrada.

    A caixa, mandei pôr num tonel,
    que foi tampado,
    que foi vedado.

    O tonel, ordenei
    que um barco levasse;
    e ao mar,
    nada mais pude ordenar.
    Mesmo assim,
    o barco chegou ao seu lugar:
    uma montanha isolada,
    com uma gruta estreita,
    do diâmetro do tonel.

    Empurraram-no para dentro
    e, com pedras por fora,
    separei-me do mundo.

    O coração que, apaixonado, batia, dentro da roupa,
    dentro da caixa,
    fechada num tonel,
    escondido num extinto vulcão,
    batia alto.

    Reverberava na minha nudez,
    no meu silêncio sepulcral;
    agigantava-se em seu soar;
    e tão forte já ficava,
    que o soar de trovões
    era como um coração…
    que apenas bate…
    sem paixão.

    Não suportei: ensurdeci.
    E ao não mais ouvir
    o meu coração tilintar,
    duvidei de mim.
    Naquele ermo em que me meti,
    nada mais vi
    e duvidei de mim.
    A falta de ar tirou-me o olfato
    e duvidei de mim,
    Minha boca seca
    gosto nenhum sentia
    e duvidei ainda mais.
    E como ninguém me tocava,
    descri de tudo.

    Em nenhum momento, porém,
    deixei de acreditar, de coração,
    naquela minha paixão.
    E na cabeça já quase vazia,
    um pequeno ruído resistia,
    como um coração a bater:
    e quanto mais eu pensava,
    mais seu som aumentava
    até beirar o insuportável.

    Quis romper os meus invólucros:
    quis sair da montanha,
    sair do barco,
    sair do tonel,
    sair da caixa
    sair da roupa apertada –
    sem cinto,
    sem bainha,
    sem gota,
    sem botões -,
    quis sair de mim.
    Mas, temi que, de volta à vida,
    meu peito,
    mesmo cheio de paixão,
    não me fizesse ouvir mais nada:
    e então…
    e iria duvidar de quê?

    CHICO VIVAS
    http://poecia.blogspot.com

  4. Madame Katia Borges

    Modestos versos, Nilson! Esse poema é um dos melhores do Blag. É belíssimo. Vou postar no Madame (creditado, claro). BJ

  5. 02 belos poemas,01 olhar perfeito.

  6. Muito bom, muito bonito.

    Martha

  7. Um desses encontros perfeitos: poema eterno esse seu, assim como o de Whitman. Concordo plenamente com o comentário de Marcus.

  8. Um achado poético, e dos raros: conversando com o poeta na linguagem dos poetas. Parabéns!!!!!!

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