Vírgula

Somos animais inspirados, o que não nos redime. Temos idéias, e isso não nos poupa. Pelo contrário: somos animais desolados, o que não nos impede de conceber a beleza, tão humana beleza. Não, deus não é belo nem é humano, é deus e nos assalta de madrugada, ao meio-dia, às seis da tarde e nos intervalos de intervalos de intervalos. Somos animais em dúvida, nossa perdição. E se eu morresse daqui a um minuto, e o cineminha fosse interrompido, filme antigo, ficção científica, terror, comédia romântica, documentário, trágico melodramático, se eu deixasse de ser esse ator impagável que vai e diz todas as falas do personagem com absoluta verossimilhança. Se eu voltasse a nascer, e voltasse a morrer, e voltasse a sonhar, e voltasse a saber, o que saberia seria … a velha verdade, cósmica, oca, cômica, ridícula, surda, absurda, vírgula, verdade.

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1 comentário

Arquivado em Poesia

Uma resposta para “Vírgula

  1. Marcus Gusmão

    Somos animais pirados. E muitas vezes me exaspero pela certeza de que a melhor expressão para traduzir a nossa existência é tanto faz. Talvez o melhor seja não pensar. E nada melhor para comprovar esta tese do que a frase de botequim que saiu inicialmente de uma boca masculina mas ganhou total concordância numa mesa só de mulheres:
    “No tempo em que eu pensava menos eu fodia mais”.

    Mas tem outra – não sei se aprovada pelas mulheres – que embaralha um pouco a tese: sobre a moça “dadeira” da qual se diz que “fode com a mão na cabeça pra não perder o juízo”. E aí, filósofo de botequim?

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