O tempo nada me disse:
foi passando. E eu também
nada: passando. Vi coisas,
por toda a vida e nas
entrelinhas como quem só
não vê o essencial porque
não há o essencial, só o
fluxo, criança correndo
pra cá e pra lá. Nada me
ocorreu quando era bem
tarde e poderia ter brotado
pelo menos um gesto
obsceno. Foi só um sorriso
algo mudo o que me ocorreu:
miudeza de expressão, sou
uma espécie de escravo de
toda encenação da verdade.
Nada mais difícil de conceber,
porque mudo, afinal, por
que: fui até muito antes de
mim e não havia mesmo a
acrescentar, fui cavando
na infinita vontade e só
então milhares de vezes a
porta aberta para lá e para
cá, fui sendo com a convicção
de quem não, fui capaz de
compreender, e ver como isso
pode ser fútil. Andei como todos,
à esquerda, à direita, em círculos.
Deixei que o tempo esquentasse
as asas nascidas deste meu
engenho: deixei que
elas fossem de cera mais uma
vez. E mergulhei na espiral
para ver tudo e sentir tudo,
desse modo assim claro, absoluto.
No outro dia cantava para
reis e príncipes, era o bobo
da corte, o viajante, o
estrangeiro. E então um cego
a guardar as imagens de um
mundo inteiro. E então um homem
só, sem história, sem nome.
Fui sendo, fui sendo.
Minha voz aplainada no tempo.

8 Comentários
Julho 1, 2009 às 5:36 pm
é um poemaço!
Julho 1, 2009 às 8:00 pm
Achei o poema original!
Julho 1, 2009 às 8:41 pm
10 para o começo e o final.
Julho 2, 2009 às 12:15 pm
Jorro poético, no qual patenteia-se todas as mutações que o tempo constrói. Belo.
Julho 2, 2009 às 12:15 pm
digo: “patenteiam-se”.
Julho 2, 2009 às 9:36 pm
Garoto, esse é outro que vai cair em vestibular. Deixa eu dar pra minha filha ir estudando e interpretando.
Julho 4, 2009 às 11:39 am
… existem dessas coisas que lemos e nos elevam. Nunca canso de lhe elogiar.
Aliás, o tema tem sido recorrente por aí! Fazendo propaganda do seu blog. Cria um livro, quero tê-lo entre os da minha estante. Daqueles que abrimos todos os dias.
Beijo
Julho 9, 2009 às 7:40 am
Oi Blag,
Vi seu post no Tremderisco, obrigada e apareça sempre. Seu poema é lindo! Concordo com Gerana começo/final perfeitos.