Julho 1, 2009...2:34 pm

Mutações

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O tempo nada me disse:

foi passando. E eu também

nada: passando. Vi coisas,

por toda a vida e nas

entrelinhas como quem só

não vê o essencial porque

não há o essencial, só o

fluxo, criança correndo

pra cá e pra lá. Nada me

ocorreu quando era bem

tarde e poderia ter brotado

pelo menos um gesto

obsceno. Foi só um sorriso

algo mudo o que me ocorreu:

miudeza de expressão, sou

uma espécie de escravo de

toda encenação da verdade.

Nada mais difícil de conceber,

porque mudo, afinal, por

que: fui até muito antes de

mim e não havia mesmo a

acrescentar, fui cavando

na infinita vontade e só

então milhares de vezes a

porta aberta para lá e para

cá, fui sendo com a convicção

de quem não, fui capaz de

compreender, e ver como isso

pode ser fútil. Andei como todos,

à esquerda, à direita, em círculos.

Deixei que o tempo esquentasse

as asas nascidas deste meu

engenho: deixei que

elas fossem de cera mais uma

vez. E mergulhei na espiral

para ver tudo e sentir tudo,

desse modo assim claro, absoluto.

No outro dia cantava para

reis e príncipes, era o bobo

da corte, o viajante, o

estrangeiro.  E então um cego

a guardar as imagens de um

mundo inteiro. E então um homem

só, sem história, sem nome.

Fui sendo, fui sendo.

Minha voz aplainada no tempo.

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