Agosto 24, 2008...9:49 am

Zelo

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DSC00344 por você.

Nunca tinha usado muletas. Vinte dias depois de incorporá-las temporariamente, tenho calos nas mãos e a consciência da força simbólica dessas – ave, McLuhan – extensões do meu corpo, acopladas aos braços para fazê-los assumir a função das pernas.

 

            Signo dos fracos: Nietszche me perdoe (ops, isso é muito cristão!), mas admito, confesso, a surpresa diante da solidariedade dos estranhos que me abrem portas, dão passagem, oferecem ajuda. Alguém parou no trânsito para oferecer carona. É sentimentalismo, vá lá, mas o que me ocorre é que nem tudo está perdido.

 

            Depois de uma queda ridícula, por exemplo. Descia uma ladeira com calçada de pedras portuguesas – viu, Caetano? – , e oooops, direto pro chão num trecho meio molhado. Foi tudo muito rápido. O solado da sandália no pé esquerdo, o bom, tá meio gasto e não aderiu. Pra não me apoiar sobre o direito, larguei o corpo. E eis que surgem, de um lado, uma senhora negra, baixinha, que provavelmente não agüentaria meu peso, mas vinha com toda a disposição de ajudar. Do outro, um cara de roupas velhas e sujas, óculos de lentes arranhadas, que subiu uns 15 metros da bendita ladeira, colocou o celular com fones de ouvido no chão e me deu o braço. Tudo muito rápido: solidariedade automática.

 

            Indo e voltando do médico com dona Olga, tia de Emília, tia-avó de Caio: aos 77 anos, irascível na maioria das vezes, generosamente instalada ao volante do Corsa 95. Preocupadíssima quando inventei atravessar a Manoel Dias da Silva fora do sinal.

 

            As muletas vão sair de cena em breve. Até já fui liberado para dirigir. Na fisioterapia, microchoques elétricos pra estimular a recuperação do tornozelo. Ultrassom, gelo, exercícios. A torção foi de grau 2, informa a fisioterapeuta. Se fosse grau 3, tinha que operar.

 

            Tornozelo: um mau passo numa manhã distraída vai custar dois meses de caminhadas pela orla, talvez isso também de ioga. Um estrago na premente rotina de exercícios de um cara muito ansioso, precisado dessas coisas. Parte das férias no estaleiro. E aquele escorregão na última sexta-feira rendeu um fim de semana com dor na base da coluna.

 

            Zelo: ontem vi um menino negro e sujo, em frente à locadora de vídeo, pedir ao segurança pra deixar a mãe, também negra e suja, usar o sanitário. Autorização concedida, mas então pretos pobres ainda precisam de permissão pra entrar em um estabelecimento comercial? Ali mesmo, momentos antes, os atendentes foram solícitos com o cabeludo classe média de muletas, e um burguês afável me abriu a porta com toda gentileza.

 

            Deu vergonha de abusar da boa vontade dos outros, que poderia ser destinada a quem de fato precisa. Vergonha de perceber que para aquele menino pouquíssima gente de fato dispensa alguma boa vontade. E eu me incluo entre os que se dão por satisfeitos em doar uns trocados para a creche do subúrbio e, de vez em quando, se dar conta do absurdo das crianças nos sinais. Deixando à míngua, por exemplo, o Projeto Axé, onde os meninos das ruas de Salvador têm direito a solidariedade, atenção, disposição para ajudar. A alguém que lhes abra as portas. A pessoas que lhes dêem uma coisa preciosa: zelo.

 

            Muletas não são extensões dos olhos, como os óculos. Mas também podem nos ajudar a enxergar melhor.

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