Cena de Na natureza selvagem
Você embarcou no ônibus-esquife sem
pneus e sem destino, e desde então
os motores do mundo rugem como
nunca, sutis engrenagens lubrificadas
pelo suor e por tudo o mais que se extrai
dos homens, lúbricas formas de estar na
vida como nas fábricas, nos escritórios,
nos bares, nas ruas de sonho acordado
trocando vísceras as próprias vísceras
pelo papel mais aclamado, por exemplo
o de mocinho, o de bandido, o de
vítima inocente, o de encarnação
do mal. Você deixou o cinema numa
tarde qualquer, largou o carro
de manhã cedinho, queimou dinheiro
foi ver o que se passa no extremo
da terra, ziguezagueando por estradas
à margem da margem da margem
da margem pois foram poucos os
que se deitaram extenuados em
vigília absoluta em lugares vagos
como o ônibus-esquife e, sozinhos
com a morte, lhe disseram certo,
vamos em frente, vamos ver
o que se passa em outros extremos,
para além das cadeias de montanhas
cobertas de neve, para além da neve,
das nuvens, da novidade breve
de mais um dia. Você foi e combateu,
como Quixote combateu a idéia da
máquina, máquina, máquina
de moer a natureza e vomitar de volta
pedaços dela, peças utilitárias de
quebra-cabeças, destituídas no entanto
do segredo impalpável que faz a graça
deste mundo.
(Alex Supertramp é o nome adotado por Chris McCandless, um garoto americano que saiu de mochila pelos EUA depois de se formar e, embalado pela leitura de Thoreau, Tolstoi e Jack London, ao final de uma aventura de quase dois anos na estrada foi viver no Alasca uma experiência radical: jogou fora o mapa e, tendo levado apenas um saco de quatro quilos de arroz, alimentou-se por quatro meses do que caçou e coletou no mato.
Seu corpo foi encontrado em setembro de 1992, dentro da carcaça de um ônibus deixado na trilha para servir de abrigo a caçadores. Inanição foi a causa da morte, aos 24 anos. A história real é contada no filme “Na natureza selvagem”, dirigido por Sean Penn, que baseou-se no livro homônimo de Jon Krakauer.
O filme é muito bom. O livro, que acabei de ler, também. Concordo com Krakauer que foram injustos aqueles que viram em McCandless um suicida, um aventureiro incompetente: sobreviver tanto tempo no mato, no Alasca, não é pra qualquer um, e além disso a sua trajetória é, de fato, de uma vitalidade absurda. Quixotesca, a meu ver – naquilo que o Quixote de Cervantes tem de mais profundo, sua ironia com o idealismo, seu carinho com o idealista.
Detalhe: Supertramp/McCandless morreu provavelmente no dia 19 de agosto, exatos 16 anos atrás).
P.S: sobre neoludismo, confira aqui. A associação é minha: não há menção ao movimento no livro ou no filme. Assim como não há referência ao Quixote.
4 Comentários
Agosto 19, 2008 às 12:19 pm
Gostei dessa sua definição e analogia… muito perspicaz.
Agosto 19, 2008 às 8:21 pm
Nilson, gostei muito do poema. Lembra Whitman. Não fui ver o que é neoludismo, confesso, mas fiquei curiosa pra assistir o filme.
Agosto 19, 2008 às 10:15 pm
Gostei muito; aliás, ando gostando cada vez mais dos poemas.
Agosto 24, 2008 às 11:28 am
Assistimos recentemente o filme com Natan e Luana, achei forte para eles mas assistindo todos juntos, com comentários adultos e maternos, penso que quase tudo pode e tem de ser assistido… Todos ficamos muito comovidos e pensativos, e o pensamento que me veio é que talvez o maior e mais traiçoeiro engano desta nossa estranha época é fazer as pessoas acharem que é possível ser, e ser feliz, sozinho!!! Quando Alex, depois de tantas aventuras e desventuras, descobre a grande verdade que o poeta já cantou, “é impossível ser feliz sozinho”, muito infelizmente o destino fechara a porta da volta…