Pensa, Whitman, a poesia triunfou.
O homem só pode viver do que sonha,
e de sonhos é composta toda a trama
que há em volta. Toda maravilha
do mundo.
Calcula, Whitman. Toda a extensão do teu amor
não abarca a extensão do que veio e virá
para além dos teus versos. Mas
o amor, Whitman, foi inventado pela poesia,
e a ela deve tudo. A poesia
triunfou.
(À procura de uma imagem para ilustrar o poema, topei com essa aí de um blog legal em inglês, Golempoem. Depois de publicar a foto e os meus – modestos – versos, me dei conta do texto postado embaixo, do próprio Walt Whitman. Uma porrada, e essa foto com o olhar dele nos encarando combina perfeitamente com o desafio lançado. Não ouso traduzir, mas deu pra entender mesmo com o meu inglês the-book-is-on-the-table. Basicamente, ele diz que fez os versos para você que está lendo, no futuro, quando você é visível e ele tornou-se invisível. E diz que está ao seu lado neste exato momento em que você o lê. Aí você encara o olhar dele na foto: fantasmagórico! Olá, Whitman!!!)
Eis o poema:
Full of life now
Full of life, now, compact, visible,
I, forty years old the eighty-third Year of The States,
To one a century hence, or any number of centuries hence,
To you, yet unborn, these, seeking you.
When you read these, I, that was visible, am become invisible;
Now it is you, compact, visible, realizing my poems, seeking me;
Fancying how happy you were, if I could be with you, and become your comrade;
Be it as if I were with you. (Be not too certain but I am now with you.)

8 Comentários
Agosto 7, 2008 às 5:41 pm
Sempre incríveis, estas suas poesias…
Saudades matadas a tiros de lirismo,
Muito grato e parabéns!
Agosto 8, 2008 às 1:20 am
Desde que alguém tentou registrar algo numa pedra ou pergaminho deve ter pensado neste triângulo tempo/espaço. Num vétice, quem registra. No outro, quem decifra. E o terceiro é o encontro no tempo, é a mágica. Belo poema cara, e se a blogosfera não for um fogo de palha/bits, um terceiro encontro poderá acontecer, numa busca fortuíta ao google por volta de 2150.
Agosto 8, 2008 às 4:59 am
Esse papel de garimpeiro cai bem em quem se permite, mesmo quando crê no Alto – e isso, hoje, parece baixo demais -, deixar cairem os olhos: se eles dão “de cara” com um papel, mesmo que só numa fugidia lembrança, ainda que em branco, eis um poema sendo feito.
—————-
Calei.
Emudeci.
Fechei-me em mim.
Vesti roupa apertada.
Casei todos os botões.
Levantei a gola.
Desci a bainha.
Apertei o cinto.
Entrei numa caixa
e ela foi lacrada.
A caixa, mandei pôr num tonel,
que foi tampado,
que foi vedado.
O tonel, ordenei
que um barco levasse;
e ao mar,
nada mais pude ordenar.
Mesmo assim,
o barco chegou ao seu lugar:
uma montanha isolada,
com uma gruta estreita,
do diâmetro do tonel.
Empurraram-no para dentro
e, com pedras por fora,
separei-me do mundo.
O coração que, apaixonado, batia, dentro da roupa,
dentro da caixa,
fechada num tonel,
escondido num extinto vulcão,
batia alto.
Reverberava na minha nudez,
no meu silêncio sepulcral;
agigantava-se em seu soar;
e tão forte já ficava,
que o soar de trovões
era como um coração…
que apenas bate…
sem paixão.
Não suportei: ensurdeci.
E ao não mais ouvir
o meu coração tilintar,
duvidei de mim.
Naquele ermo em que me meti,
nada mais vi
e duvidei de mim.
A falta de ar tirou-me o olfato
e duvidei de mim,
Minha boca seca
gosto nenhum sentia
e duvidei ainda mais.
E como ninguém me tocava,
descri de tudo.
Em nenhum momento, porém,
deixei de acreditar, de coração,
naquela minha paixão.
E na cabeça já quase vazia,
um pequeno ruído resistia,
como um coração a bater:
e quanto mais eu pensava,
mais seu som aumentava
até beirar o insuportável.
Quis romper os meus invólucros:
quis sair da montanha,
sair do barco,
sair do tonel,
sair da caixa
sair da roupa apertada -
sem cinto,
sem bainha,
sem gota,
sem botões -,
quis sair de mim.
Mas, temi que, de volta à vida,
meu peito,
mesmo cheio de paixão,
não me fizesse ouvir mais nada:
e então…
e iria duvidar de quê?
CHICO VIVAS
http://poecia.blogspot.com
Agosto 8, 2008 às 11:49 am
Modestos versos, Nilson! Esse poema é um dos melhores do Blag. É belíssimo. Vou postar no Madame (creditado, claro). BJ
Agosto 8, 2008 às 12:01 pm
02 belos poemas,01 olhar perfeito.
Agosto 9, 2008 às 11:21 am
Muito bom, muito bonito.
Martha
Agosto 10, 2008 às 1:17 pm
Um desses encontros perfeitos: poema eterno esse seu, assim como o de Whitman. Concordo plenamente com o comentário de Marcus.
Agosto 10, 2008 às 8:57 pm
Um achado poético, e dos raros: conversando com o poeta na linguagem dos poetas. Parabéns!!!!!!