Novembro 25, 2007...11:37 pm

Metafísica para principiantes

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 Crédito da ilustração

Tenho alma de bicho, alma de mato

e de terra, tenho

dores de água no percurso abismal,

tanto arranha, tanto bate até que

fure a casca do concreto

que resiste em crer-se, o quanto se

sabe aquele que se esquece,

aquele que se confunde com o que sequer.

Tenho alma de gente sem sequer ser gente

assim por inteiro, folhas de relva

galgando a parede, o país e o mundo.

Tenho alma sem sabê-la, sou antes

carne e osso e eletricidade ligando

meu corpo ao chão e às nuvens,

não quero seguir vivendo senão

pelo sentimento agudo de ser mais do que aparento,

um vértice de charadas

genéticas e históricas, um sobrevivente

do cotidiano, um cidadão do mundo

fustigado pelas revoluções dos homens

e do clima. Um chimpanzé de habilidades

espantosas para um chimpanzé de gestos

tão inequívocos, algo que não se fala mais

hoje em dia: o caráter divino dos animais,

sua densa telúrica estupidez como a que

costuma acometer as pessoas quando se

deixam seduzir pelos próprios intestinos

temores. Sou uma porta: nunca vi um fantasma.

Antes apareço volta e meia

na janela para tentar surpreender os

homens sem metafísica, e toda fragilidade

do mundo está protegida pelos hábitos

supersticiosos que inventei: por exemplo

dormir com a barriga para baixo, e respirar

fundo ao acordar, e jamais

descuidar de que tudo não passe

de um truque. 


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