Tenho alma de bicho, alma de mato
e de terra, tenho
dores de água no percurso abismal,
tanto arranha, tanto bate até que
fure a casca do concreto
que resiste em crer-se, o quanto se
sabe aquele que se esquece,
aquele que se confunde com o que sequer.
Tenho alma de gente sem sequer ser gente
assim por inteiro, folhas de relva
galgando a parede, o país e o mundo.
Tenho alma sem sabê-la, sou antes
carne e osso e eletricidade ligando
meu corpo ao chão e às nuvens,
não quero seguir vivendo senão
pelo sentimento agudo de ser mais do que aparento,
um vértice de charadas
genéticas e históricas, um sobrevivente
do cotidiano, um cidadão do mundo
fustigado pelas revoluções dos homens
e do clima. Um chimpanzé de habilidades
espantosas para um chimpanzé de gestos
tão inequívocos, algo que não se fala mais
hoje em dia: o caráter divino dos animais,
sua densa telúrica estupidez como a que
costuma acometer as pessoas quando se
deixam seduzir pelos próprios intestinos
temores. Sou uma porta: nunca vi um fantasma.
Antes apareço volta e meia
na janela para tentar surpreender os
homens sem metafísica, e toda fragilidade
do mundo está protegida pelos hábitos
supersticiosos que inventei: por exemplo
dormir com a barriga para baixo, e respirar
fundo ao acordar, e jamais
descuidar de que tudo não passe
de um truque.

1 Comentário
Novembro 26, 2007 às 7:48 pm
Sabe, Nilson, às vezes penso que é isso mesmo. Tudo não passa de um grande truque, obra de um ilusionista habilidoso.