Novembro 7, 2009

Assim falava

Vivo no mundo, não no seu duplo.

Mas todo mundo tem o seu duplo;

isso é fato – ou ao menos uma versão

razoavelmente verossímil.

Novembro 4, 2009

Como num filme

É como num filme, e

no final você morre.

É assim, um contínuo,

você sabe mas

embarca na história

que é incrível, e às vezes,

só às vezes, se dá conta.

Embora isso não importe: você

fica bem ali, respira

nesse ritmo e não desgruda

os olhos. Nunca. Ao menos

até o final.

Novembro 3, 2009

Terça-feira, 10, na Tom do Saber: Kátia Borges e Maxim Malhado enviam Cartas Bahianas

convite novembro

Outubro 30, 2009

Um périplo

Um desses dias – desses velhos

desatinos, andarmos por aí

como temos sido, vagabundeando

quase sempre, onde estivermos,

o que formos. Um desses dias

extremamente ocupados: criando

muitas coisas para se ocupar porque

somos assim: adoramos essas coisas

que criamos e as usamos, e as temos.

Elas brincam de deixar-nos e saem

para ziguezaguear e ficamos em torno

delas, as coisas, como borboletas elas

abrem-se, multicoloridas e frágeis e

tão leves e volúveis: corremos atrás

delas num campo extenso com

quase nada por muito tempo,

e vamos até onde isso nos leva,

siderados hipnotizados pelas

coisas brilhando, fosforescendo,

pulsando. Ardemos febris porque

as temos, às coisas, e por elas

desbravamos um planeta de

paisagens desconhecidas, outros

sóis, outras luas, cravamos nossos

dedos na fímbria das coisas e elas

nos alçam para além de nossas

forças ou virtudes ou crenças.

E não nos ocorre nunca deixá-las

partir: elas são nossas, e as

temos. É assim.

Outubro 28, 2009

Pensata

O pensador

 

 

 

 

 

Rodin: O pensador.

 

O que é que você sabe? Nada.

Nem isso, talvez. Ou mais que

isso: muita bobagem, inclusive

todas as letras enfileiradas que

se misturam, se chocam, se

confundem. Fica pensando: vai

pensando desde o berço até o

fim, pensando com essa carne

que calcula, nuvem de

memória, palpite de sempre.

O que é que você tem na cabeça?

Uma história? Uma isca? Uma

válvula? Umas pernas? Uns

sexos? Baratas? Armadilhas?

Pedras indecifráveis? Universos?

Tem ideia do que sejam?

Universos? O que é que você come?

Gente? Eis o problema: você

come gente, você come gente,

você come. O que é que você quer?

Nada. Nada, no final das contas. Só

dormir um pouco, é o que você quer.

Só dormir e sonhar: com o que talvez

nem se saiba. Com o que definitivamente

não se sabe.

Outubro 22, 2009

Apóstolo

Depois do que vi, desde que vi, já não sou

o mesmo: transtornado sob o céu que se

mostra como a todos que lhe sondam.

Depois de tudo, o véu de tudo,

algo como a dor, sem que a dor

se revele desse jeito. E aí nada.

Outubro 21, 2009

Feito bicho

Piso com a firmeza

possível: meu instinto

movediço.

Piso como quem

pressente, pegadas

indistintas.

Outubro 17, 2009

Gloriosos escalpeladores

ingloriousbastards_4

Inversão de perspectiva: nazista nas garras de Brad Pitt, judeu escalpelador

Não li até agora nenhuma crítica a respeito, não sou crítico de cinema e a minha capacidade de prever o futuro é nenhuma, mas, ainda sob o impacto da sessão de ontem à noite, vou arriscar uns chutes a respeito de “Bastardos inglórios” (“Inglorious basterds”), o novo filme de Quentin Tarantino:

1) Com ou sem Oscar, já entrou, na minha modesta opinião, pra galeria dos grandes filmes da história;

2) Vai virar cult, assim como “Pulp fiction”. É Tarantino virando e revirando as referências, a técnica narrativa e outras bruxarias cinematográficas. Acho que Truffaut & cia concordariam comigo;

3) Vai marcar época: aos 70 anos da Segunda Guerra, é uma obra que vai além do cinema, com um enredo insólito que tem a inventividade – e a liberdade de expressão e o caráter autoral – da  literatura e, também em comum com a melhor literatura, uma conexão com sentimentos profundos do ser humano. Vide o texto de Contardo Caligaris a respeito, na Folha de S. Paulo. Basta dizer que o maluco do Tarantino pensou no impensável e levou, pra morrer no cinema, ninguém menos que… bem, essa deixo pra você descobrir, que não tô aqui pra contar o final!

4) O tal do Christoph Waltz, que faz o nazista “caçador de judeus”, vai ganhar mesmo o Oscar como estão dizendo. Graaande e terrível personagem digna de uma peça de Shakespeare!

5) Tarantino é um gênio!

6) Vá ver e tire suas conclusões. Em se tratando da mente pervertida por trás de “Kill Bill”, não falta violência, com direito a escalpos de nazistas sendo arrancados assim, a seco, como nunca se viu nos filmes de faroeste. Mas não deixe de ir – e ficar mais ou menos como quem viu Casablanca no cinema em 1942: testemunha em primeira mão de um filme que iria repercutir pelas décadas e décadas seguintes!

7) Agora que empenhei todas as minhas parcas fichas como cinéfilo e futurólogo, resta torcer pra que você também viaje na maionese. Se discordar, paciência: pra tirar a prova da maior parte do que disse aqui, só dentro de uns vinte anos. E aí talvez estejamos mortos, ou você nem se lembre mais desses meus temerários vaticínios!!!

Outubro 15, 2009

Um grito

Não, ninguém sabe: foi

num dia de céu aberto

escancarado para todas as

direções e num dia assim

fazia frio calor não importa.

.

Ninguém viu: um milagre

um grito, partir a terra ao meio,

abri-la e sorver o sumo de

suas entranhas – a terra

suculenta num dia assim tão

azul.

.

Quase nuvem, nem isso. Uma

pessoa se faz tateando

insuspeitos contornos, abrindo-se

a garganta pra chegar ao que há,

só assim. Uma pessoa se desfaz

com essas borrachas comuns.

.

Concreto, concreto, parede-meia

com a ribanceira, vizinhança

boa. Todo homem se conhece

por tentativa e erro. Ainda mais

o que desmorona, e isso se faz

em silêncio, sem qualquer

testemunha.

Outubro 14, 2009

Medicina quântica

A dor, esse remédio

para toda ocasião:

saber da pele, das entranhas.

A dor esse hábito de cada

partícula do corpo

e da alma.