Minha tua noite, minha tua
espera, minha tua
vida. Minha tua estrela, minha
tua sempre, minha tua
nunca. Minha tua nuca,
minha tua cuca, minha tua
coisa. Música minha, tua,
natureza tua, melodia tua,
minha sorte minha.
Minha tua noite, minha tua
espera, minha tua
vida. Minha tua estrela, minha
tua sempre, minha tua
nunca. Minha tua nuca,
minha tua cuca, minha tua
coisa. Música minha, tua,
natureza tua, melodia tua,
minha sorte minha.


A P55 Edições dá seqüência à coleção Cartas Bahianas com três lançamentos nesta terça, 7, das 19h às 22h, na Livraria Tom do Saber (Rua João Gomes, 249, Pirâmide do Rio Vermelho). Saindo do forno, ‘As receitas de Mme. Castro’, de Aninha Franco, ‘Ananke’, de Marcos Dias, e ‘Ao longo da linha amarela’, de João Filho. Não perca!!!
Daqui de casa
seguro a noite em meu peito.
Agarro a noite à unha
como um grande e velho touro negro.
Com um fio de voz
mantenho a lua suspensa (imensa).
.
Se eu dormir
a noite desmorona.
(Extraí esse belo poema de Martha do site Plataforma para a poesia. Porque a noite está sempre por um fio!).
O tempo nada me disse:
foi passando. E eu também
nada: passando. Vi coisas,
por toda a vida e nas
entrelinhas como quem só
não vê o essencial porque
não há o essencial, só o
fluxo, criança correndo
pra cá e pra lá. Nada me
ocorreu quando era bem
tarde e poderia ter brotado
pelo menos um gesto
obsceno. Foi só um sorriso
algo mudo o que me ocorreu:
miudeza de expressão, sou
uma espécie de escravo de
toda encenação da verdade.
Nada mais difícil de conceber,
porque mudo, afinal, por
que: fui até muito antes de
mim e não havia mesmo a
acrescentar, fui cavando
na infinita vontade e só
então milhares de vezes a
porta aberta para lá e para
cá, fui sendo com a convicção
de quem não, fui capaz de
compreender, e ver como isso
pode ser fútil. Andei como todos,
à esquerda, à direita, em círculos.
Deixei que o tempo esquentasse
as asas nascidas deste meu
engenho: deixei que
elas fossem de cera mais uma
vez. E mergulhei na espiral
para ver tudo e sentir tudo,
desse modo assim claro, absoluto.
No outro dia cantava para
reis e príncipes, era o bobo
da corte, o viajante, o
estrangeiro. E então um cego
a guardar as imagens de um
mundo inteiro. E então um homem
só, sem história, sem nome.
Fui sendo, fui sendo.
Minha voz aplainada no tempo.

No tabuleiro da baiana tem … ketchup! “Se não tiver,
o povo reclama”, explica uma, purista, que resiste
ao que já virou uma espécie de tradição local.

Postura do morto: tem essa posição na
ioga (o nome em sânscrito é shavássana).
Aqui é ao pé da letra: as aulas acontecem na
funerária Pax Nacional!!!

Ogã medieval: um castelo com torres que nem o de
Garcia d’Ávila tinha. Obra de um pai-de-santo que
espalhou out-doors pela cidade. E olhe que os crentes
proliferam, e os católicos vão bem, obrigado.


Encruzilhada. Talvez esteja aí a resposta para todo esse hibridismo. Aqui tem
gente de tudo que é canto, vem gente de tudo que é canto, pra tudo que é canto.
Quer mais?
Dirigir é um estado alterado da consciência, ouvi uma vez numa palestra. E acrescento: dirigir e voltar às origens, então, é uma viagem ainda mais radical – ops, radical, raízes, essas coisas vão colando nessas circunstâncias e não deve ser à toa…
À toa estou eu, depois de uma semana frenética de trabalho e de acordar às 4h30 pra pegar a BR antes do famigerado engarrafamento. E deu certo – confesso que tomei café e Redbull, duas drogas da pesada, pra não dormir porque sou um cara de acordar mais tarde, sacumé.
Partilha musical no som do carro: Caio com os Beatles – em plena beatlemania aos nove anos, o cara -, Emília com Caetano, ‘Cê ao vivo’, e eu com uma enfiada de discos de Gonzagão. 500 quilômetros assim.
Não me entenda mal, mas vejo muitas conexões entre o grande Luís e os meninos de Liverpool: a inventividade melódica, a simplicidade aparente, a misteriosa capacidade de compor não simplesmente sucessos eternos, mas canções que são puro domínio público. Eles e Caymmi, entre outros, parece que plugavam no inconsciente coletivo e deixavam fluir. Viajei.
E Caetano: uma nova versão de ‘Sampa’ que é uma beleza e ‘O homem velho’, uma canção madura, um grande poema rescendendo ao ‘olor fugaz do sexo das meninas’. Mais psicotópicos nessa viagem, como se vê.
Então Brumado, e uma certa melancolia, a droga das drogas. Pai, mãe, irmãos, meninos, tios, primos. Brumado já não é como na adolescência, o porto seguro do garoto do interior estudando em Salvador. Já não dá mais angústia do cara que não encontrava mais os amigos, já não conhecia ninguém. É uma cidade qualquer onde cresci. Já não diz mais nada, diz tudo. Um sono incrível: banzo???
E hoje acabei de ler a biografia de John Lennon. De certa forma de luto pela morte estúpida. Há quase trinta anos, foi aqui mesmo em Brumado que ouvi falar dele pela primeira vez, exatamente quando foi assassinado. Tinha onze anos e nenhuma ideia dos Beatles ou do rock. Dos hippies, sim, que passavam por aqui e deixavam impressionado aquele garoto urbano de cidade operária do sertão.
Sou esses paradoxos. Lennon era muito mais. Era um ser humano, confuso como todos somos, mas não se pode negar a vida intensa, o brilho, o legado. Morreu hoje de novo pra mim e estou de luto. Tinha 40 anos, a minha idade. É possível suscitar uma alentada biografia de 800 páginas em quatro décadas de vida. Ou não. Mas isso pouco importa, no final das contas.
Na fila: Bioy Casares, o amigo de Borges. Parece bom. E a viagem segue…
Era menino,
e só queria ver o mar.
.
Era menino,
e só queria ver o mar.
.
É o mar, é o mar, é o mar,
é o mar, é o mar, elo-mar.
Gonzaga, não, destino,
menino rasga o fole,
criança no terreiro,
zabumba, flor da pele.
.
Gonzaga, sim, que sorte,
quem sabe Deus que pode,
caminho sem porteiras,
arrasta-pé, saudade.