Novembro 18, 2009

Agora mesmo

Há uma canção forjada no céu forjada

no inferno. Ninguém é capaz de ouvi-la

neste mundo: mas ela vibra sobre todas

as coisas e não cessa. Agora mesmo vibra,

suas notas inalcançáveis no entanto vagam

entre formas humanas e inumanas,

contornam pedras e edifícios e os atravessam

e seguem, e não se repetem, e não se

desfazem. Agora mesmo essa canção

informe. Ninguém sabe ao certo como se

concebe. Não se sabe nada sobre o que ela cria

neste mundo.

 

Novembro 12, 2009

Folha seca

Cai uma palavra, e ela

faz uma volta inteira

em torno de si mesma:

como uma folha em

espiral, uma folha seca

da árvore ao vento. Cai

uma palavra estranha

e fica ali, no chão,

à espera.

Novembro 9, 2009

Bora?

Nesta terça, o programa é o lançamento dos livros de Kátia Borges e Maxim Malhado, a partir das 19h na Tom do Saber, no Rio Vermelho. Estaremos lá, eu, Emília e Caio. E, Kátia, vou tomar aquela cerveja que me deixou com água na boca, dois meses atrás!!!

Novembro 7, 2009

Assim falava

Vivo no mundo, não no seu duplo.

Mas todo mundo tem o seu duplo;

isso é fato – ou ao menos uma versão

razoavelmente verossímil.

Novembro 4, 2009

Como num filme

É como num filme, e

no final você morre.

É assim, um contínuo,

você sabe mas

embarca na história

que é incrível, e às vezes,

só às vezes, se dá conta.

Embora isso não importe: você

fica bem ali, respira

nesse ritmo e não desgruda

os olhos. Nunca. Ao menos

até o final.

Novembro 3, 2009

Terça-feira, 10, na Tom do Saber: Kátia Borges e Maxim Malhado enviam Cartas Bahianas

convite novembro

Outubro 30, 2009

Um périplo

Um desses dias – desses velhos

desatinos, andarmos por aí

como temos sido, vagabundeando

quase sempre, onde estivermos,

o que formos. Um desses dias

extremamente ocupados: criando

muitas coisas para se ocupar porque

somos assim: adoramos essas coisas

que criamos e as usamos, e as temos.

Elas brincam de deixar-nos e saem

para ziguezaguear e ficamos em torno

delas, as coisas, como borboletas elas

abrem-se, multicoloridas e frágeis e

tão leves e volúveis: corremos atrás

delas num campo extenso com

quase nada por muito tempo,

e vamos até onde isso nos leva,

siderados hipnotizados pelas

coisas brilhando, fosforescendo,

pulsando. Ardemos febris porque

as temos, às coisas, e por elas

desbravamos um planeta de

paisagens desconhecidas, outros

sóis, outras luas, cravamos nossos

dedos na fímbria das coisas e elas

nos alçam para além de nossas

forças ou virtudes ou crenças.

E não nos ocorre nunca deixá-las

partir: elas são nossas, e as

temos. É assim.

Outubro 28, 2009

Pensata

O pensador

 

 

 

 

 

Rodin: O pensador.

 

O que é que você sabe? Nada.

Nem isso, talvez. Ou mais que

isso: muita bobagem, inclusive

todas as letras enfileiradas que

se misturam, se chocam, se

confundem. Fica pensando: vai

pensando desde o berço até o

fim, pensando com essa carne

que calcula, nuvem de

memória, palpite de sempre.

O que é que você tem na cabeça?

Uma história? Uma isca? Uma

válvula? Umas pernas? Uns

sexos? Baratas? Armadilhas?

Pedras indecifráveis? Universos?

Tem ideia do que sejam?

Universos? O que é que você come?

Gente? Eis o problema: você

come gente, você come gente,

você come. O que é que você quer?

Nada. Nada, no final das contas. Só

dormir um pouco, é o que você quer.

Só dormir e sonhar: com o que talvez

nem se saiba. Com o que definitivamente

não se sabe.

Outubro 22, 2009

Apóstolo

Depois do que vi, desde que vi, já não sou

o mesmo: transtornado sob o céu que se

mostra como a todos que lhe sondam.

Depois de tudo, o véu de tudo,

algo como a dor, sem que a dor

se revele desse jeito. E aí nada.

Outubro 21, 2009

Feito bicho

Piso com a firmeza

possível: meu instinto

movediço.

Piso como quem

pressente, pegadas

indistintas.