Vivo no mundo, não no seu duplo.
Mas todo mundo tem o seu duplo;
isso é fato – ou ao menos uma versão
razoavelmente verossímil.
Vivo no mundo, não no seu duplo.
Mas todo mundo tem o seu duplo;
isso é fato – ou ao menos uma versão
razoavelmente verossímil.
É como num filme, e
no final você morre.
É assim, um contínuo,
você sabe mas
embarca na história
que é incrível, e às vezes,
só às vezes, se dá conta.
Embora isso não importe: você
fica bem ali, respira
nesse ritmo e não desgruda
os olhos. Nunca. Ao menos
até o final.

Um desses dias – desses velhos
desatinos, andarmos por aí
como temos sido, vagabundeando
quase sempre, onde estivermos,
o que formos. Um desses dias
extremamente ocupados: criando
muitas coisas para se ocupar porque
somos assim: adoramos essas coisas
que criamos e as usamos, e as temos.
Elas brincam de deixar-nos e saem
para ziguezaguear e ficamos em torno
delas, as coisas, como borboletas elas
abrem-se, multicoloridas e frágeis e
tão leves e volúveis: corremos atrás
delas num campo extenso com
quase nada por muito tempo,
e vamos até onde isso nos leva,
siderados hipnotizados pelas
coisas brilhando, fosforescendo,
pulsando. Ardemos febris porque
as temos, às coisas, e por elas
desbravamos um planeta de
paisagens desconhecidas, outros
sóis, outras luas, cravamos nossos
dedos na fímbria das coisas e elas
nos alçam para além de nossas
forças ou virtudes ou crenças.
E não nos ocorre nunca deixá-las
partir: elas são nossas, e as
temos. É assim.

Rodin: O pensador.
O que é que você sabe? Nada.
Nem isso, talvez. Ou mais que
isso: muita bobagem, inclusive
todas as letras enfileiradas que
se misturam, se chocam, se
confundem. Fica pensando: vai
pensando desde o berço até o
fim, pensando com essa carne
que calcula, nuvem de
memória, palpite de sempre.
O que é que você tem na cabeça?
Uma história? Uma isca? Uma
válvula? Umas pernas? Uns
sexos? Baratas? Armadilhas?
Pedras indecifráveis? Universos?
Tem ideia do que sejam?
Universos? O que é que você come?
Gente? Eis o problema: você
come gente, você come gente,
você come. O que é que você quer?
Nada. Nada, no final das contas. Só
dormir um pouco, é o que você quer.
Só dormir e sonhar: com o que talvez
nem se saiba. Com o que definitivamente
não se sabe.
Depois do que vi, desde que vi, já não sou
o mesmo: transtornado sob o céu que se
mostra como a todos que lhe sondam.
Depois de tudo, o véu de tudo,
algo como a dor, sem que a dor
se revele desse jeito. E aí nada.
Piso com a firmeza
possível: meu instinto
movediço.
Piso como quem
pressente, pegadas
indistintas.

Inversão de perspectiva: nazista nas garras de Brad Pitt, judeu escalpelador
Não li até agora nenhuma crítica a respeito, não sou crítico de cinema e a minha capacidade de prever o futuro é nenhuma, mas, ainda sob o impacto da sessão de ontem à noite, vou arriscar uns chutes a respeito de “Bastardos inglórios” (“Inglorious basterds”), o novo filme de Quentin Tarantino:
1) Com ou sem Oscar, já entrou, na minha modesta opinião, pra galeria dos grandes filmes da história;
2) Vai virar cult, assim como “Pulp fiction”. É Tarantino virando e revirando as referências, a técnica narrativa e outras bruxarias cinematográficas. Acho que Truffaut & cia concordariam comigo;
3) Vai marcar época: aos 70 anos da Segunda Guerra, é uma obra que vai além do cinema, com um enredo insólito que tem a inventividade – e a liberdade de expressão e o caráter autoral – da literatura e, também em comum com a melhor literatura, uma conexão com sentimentos profundos do ser humano. Vide o texto de Contardo Caligaris a respeito, na Folha de S. Paulo. Basta dizer que o maluco do Tarantino pensou no impensável e levou, pra morrer no cinema, ninguém menos que… bem, essa deixo pra você descobrir, que não tô aqui pra contar o final!
4) O tal do Christoph Waltz, que faz o nazista “caçador de judeus”, vai ganhar mesmo o Oscar como estão dizendo. Graaande e terrível personagem digna de uma peça de Shakespeare!
5) Tarantino é um gênio!
6) Vá ver e tire suas conclusões. Em se tratando da mente pervertida por trás de “Kill Bill”, não falta violência, com direito a escalpos de nazistas sendo arrancados assim, a seco, como nunca se viu nos filmes de faroeste. Mas não deixe de ir – e ficar mais ou menos como quem viu Casablanca no cinema em 1942: testemunha em primeira mão de um filme que iria repercutir pelas décadas e décadas seguintes!
7) Agora que empenhei todas as minhas parcas fichas como cinéfilo e futurólogo, resta torcer pra que você também viaje na maionese. Se discordar, paciência: pra tirar a prova da maior parte do que disse aqui, só dentro de uns vinte anos. E aí talvez estejamos mortos, ou você nem se lembre mais desses meus temerários vaticínios!!!
Não, ninguém sabe: foi
num dia de céu aberto
escancarado para todas as
direções e num dia assim
fazia frio calor não importa.
.
Ninguém viu: um milagre
um grito, partir a terra ao meio,
abri-la e sorver o sumo de
suas entranhas – a terra
suculenta num dia assim tão
azul.
.
Quase nuvem, nem isso. Uma
pessoa se faz tateando
insuspeitos contornos, abrindo-se
a garganta pra chegar ao que há,
só assim. Uma pessoa se desfaz
com essas borrachas comuns.
.
Concreto, concreto, parede-meia
com a ribanceira, vizinhança
boa. Todo homem se conhece
por tentativa e erro. Ainda mais
o que desmorona, e isso se faz
em silêncio, sem qualquer
testemunha.
A dor, esse remédio
para toda ocasião:
saber da pele, das entranhas.
A dor esse hábito de cada
partícula do corpo
e da alma.